Para uma parcela dos jovens brasileiros, a universidade não é uma escolha, mas uma etapa natural, uma continuação quase burocrática da escola. Para outra, muito maior, ela permanece um horizonte distante, uma miragem. A distância entre esses dois Brasis não é apenas metafórica; ela é estatística e brutal.

Um novo levantamento do Atlas da Mobilidade Social, desenvolvido pelo Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social (IMDS), quantifica esse abismo. Segundo o estudo, reportado pelo InfoMoney, um jovem nascido entre os 25% mais pobres da população tem apenas 1,58% de chance de concluir o ensino superior. Na outra ponta do espectro, para um filho dos 25% mais ricos, essa probabilidade salta para 37,77%. A diferença não é uma variação, é um colapso de oportunidades: a chance é quase 24 vezes maior para quem nasce em um lar com mais recursos.

O funil antes da faculdade

O gargalo não se instala apenas nos portões da universidade. A desigualdade é um processo de afunilamento que começa muito antes. O mesmo estudo revela que, entre os mais pobres, menos da metade (47,05%) consegue concluir o ensino médio. Entre os mais ricos, essa taxa é de 90,73%. O diploma de ensino superior, portanto, não é o primeiro prêmio de uma loteria social; é o último.

Essa realidade desenha um mapa de talentos desperdiçados. Enquanto o ecossistema de tecnologia e inovação debate a escassez de mão de obra qualificada para competir em uma economia global movida por inteligência artificial, o país pré-seleciona seus potenciais engenheiros, cientistas e empreendedores com base na renda de seus pais. O estudo define os 25% mais pobres como famílias com renda domiciliar de até R$ 2.183 mensais, e os 25% mais ricos com renda acima de R$ 7.266 (valores de 2019).

O elevador social quebrado

A educação, historicamente vista como o principal motor de mobilidade social ascendente, parece funcionar com capacidade seletiva. Fernando Veloso, diretor de pesquisa do IMDS, aponta que a baixa probabilidade de formação para os mais pobres representa um "grande obstáculo" para essa ascensão, justamente quando a qualificação se torna ainda mais crítica para acessar empregos de maior remuneração.

A implicação é direta: o Brasil perpetua a desigualdade ao negar as ferramentas para quebrá-la. A origem familiar, mais do que o mérito ou o potencial individual, continua sendo o principal preditor de futuro profissional. Em um país que precisa desesperadamente de crescimento e produtividade, o elevador social não está apenas lento; para a maioria, ele simplesmente não chega ao térreo.

O debate sobre o futuro do trabalho e a revolução da IA soa distante quando a questão fundamental, o acesso à educação básica e superior, segue sendo um privilégio definido pelo CEP de nascimento. A questão que fica não é apenas sobre justiça social, mas sobre a própria viabilidade de um projeto de país inovador e competitivo.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney