Um site criado por um ex-engenheiro de software para expor o alcance da vigilância policial se tornou um fenômeno nos Estados Unidos, atraindo dezenas de milhares de visitantes em poucas horas. A plataforma, batizada de “Have I Been Flocked?”, permite que qualquer pessoa verifique se uma placa de veículo foi alvo de buscas dentro da rede de câmeras da Flock Safety, uma das maiores fornecedoras de tecnologia de vigilância para forças policiais no país.

O movimento, reportado pelo Business Insider, joga luz sobre uma tensão crescente: de um lado, a adoção em massa de tecnologias de vigilância privada por órgãos públicos sob a bandeira da segurança; do outro, a crescente preocupação de cidadãos e ativistas com a privacidade e o potencial de abuso. O site não é apenas uma curiosidade técnica, mas uma ferramenta de contra-vigilância em um debate que apenas começa a se formar, inclusive com paralelos para o Brasil, onde o uso de reconhecimento facial e outras tecnologias de monitoramento avança rapidamente.

O espelho da vigilância

A genialidade da iniciativa de Cris van Pelt, o criador do site que trocou a engenharia de software pelo curso de direito, está em sua simplicidade e no método de coleta de dados. O “Have I Been Flocked?” não acessa as câmeras da Flock diretamente. Em vez disso, ele agrega milhões de registros de auditoria de buscas — ou seja, quando um policial ou outro agente consulta uma placa específica no sistema. Esses dados são obtidos por voluntários através de pedidos de acesso à informação pública, um esforço de transparência que transforma a burocracia do Estado contra a opacidade de seus próprios sistemas.

O resultado é um retrato parcial, mas revelador, de quão irrestrito é o uso dessas ferramentas. A Flock Safety, avaliada em US$ 8,4 bilhões, opera em mais de 6.000 comunidades nos EUA. Suas câmeras não capturam apenas a placa, mas também modelo, cor e até mesmo avarias no veículo, criando um banco de dados massivo. Embora a empresa argumente que sua tecnologia é crucial para resolver crimes graves, casos de erros de leitura de placa que levaram à abordagem violenta de motoristas inocentes e acusações de uso indevido por policiais para espionagem pessoal mancham essa narrativa.

Mais que uma startup

Diante das críticas, a Flock anunciou mudanças, como a redução do tempo de retenção de dados para novos clientes. Para organizações como a ACLU, a principal entidade de direitos civis dos EUA, a medida é pouco mais que uma tentativa de relações públicas para acalmar os ânimos. A controvérsia alimentou um ecossistema de projetos cívicos dedicados a monitorar a tecnologia, e o site de Van Pelt emergiu como uma peça central nesse quebra-cabeça, sendo utilizado inclusive por jornalistas investigativos.

A motivação de seu criador, no entanto, transcende a Flock. Ele afirma que seu objetivo não é “acabar com a Flock”, mas sim forçar um exame mais profundo da “infraestrutura de vigilância em massa” que se consolida silenciosamente. Isso inclui não apenas leitores de placas, mas drones, sistemas de detecção de som e outras tecnologias que interconectam dados de formas pouco transparentes.

A ascensão de ferramentas como o “Have I Been Flocked?” sinaliza uma nova fase na relação da sociedade com a tecnologia. Não se trata mais apenas de criticar plataformas, mas de construir contra-ferramentas que usem a lógica do sistema para fiscalizá-lo. A questão que se impõe não é apenas se estamos sendo vigiados, mas quem tem o poder de vigiar os vigilantes.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Business Insider