Por quase uma década, o negociante de arte suíço Yves Bouvier foi a presa. Caçado em múltiplas jurisdições pelo bilionário russo Dmitry Rybolovlev, que o acusava de superfaturar em US$ 1 bilhão a venda de obras-primas, Bouvier se tornou o rosto da opacidade e dos excessos do mercado de arte. Em janeiro de 2024, um júri de Nova York o inocentou, considerando que a Sotheby's não foi cúmplice no esquema. Agora, em uma reviravolta notável, o caçado virou caçador, e está usando as mesmas ferramentas legais que um dia foram apontadas contra si.

O novo campo de batalha é um tribunal federal em Nova York, mas a origem da disputa é um acordo fechado em Paris. Segundo documentos judiciais, Bouvier comprou um quadro de Picasso, “Intimité (Femmes et Enfants)”, do dealer francês Antoine Peretti por US$ 7,25 milhões. O combinado era revendê-lo e dividir os lucros. Bouvier alega que, semanas depois, a obra foi vendida através da Sotheby's por US$ 9 milhões, sem seu conhecimento. O dinheiro, afirma, nunca apareceu. Em resposta, Bouvier abriu uma queixa-crime na França por quebra de confiança.

Para provar seu caso, ele recorre a uma lei americana, a Seção 1782, para forçar a Sotheby's — sediada em Nova York — a entregar todos os registros da transação. A ironia é gritante: Bouvier, que por anos combateu processos que tentavam devassar suas operações, agora exige transparência da mesma casa de leilões que esteve no centro de sua própria saga judicial. O sobrenome Peretti também ecoa o passado; o pai de Antoine foi descrito como um conselheiro de Bouvier durante o caso Rybolovlev.

Mais do que uma simples disputa contratual, o movimento de Bouvier expõe as engrenagens de um mercado onde fortunas são feitas e desfeitas com base em apertos de mão e mensagens de WhatsApp. As batalhas legais não são uma anomalia, mas parte integrante do negócio. A questão que paira não é apenas quem tem razão, mas o que a incessante litigância entre seus principais atores revela sobre a natureza de um mundo que opera, por definição, nas sombras.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · ARTnews