Um longo e denso ensaio literário publicado pelo Lit Hub, extraído do livro “Carousel: An Essay on Seeing” de Sarah Minor, propõe uma tese desconfortável: a violência está frequentemente escondida à vista de todos, embutida em objetos de arte, decoração e tecnologia que nos habituamos a consumir sem questionamento. O texto conecta pontos aparentemente distantes da história, da tapeçaria da conquista normanda a uma esteira de ginástica num porão suburbano.
A linha que une esses elementos é a forma como diferentes mídias, ao longo do tempo, serviram para representar, e frequentemente para sanitizar, a brutalidade. O argumento central é que o papel de parede no seu living ou a esteira na sua academia podem ter ancestrais diretos em instrumentos de dominação colonial e tortura. A análise não é sobre uma conspiração, mas sobre a genealogia cultural de objetos e imagens, e o que eles revelam sobre quem detém o poder de narrar a história.
A Estética da Dominação
O ponto de partida da análise é um papel de parede panorâmico de 1806, “Les Sauvages de la Mer Pacifique”, criado pelo francês Joseph Dufour. Destinado a decorar os salões da burguesia europeia, o painel contava a história das viagens “científicas” do Capitão Cook ao Pacífico. A obra, no entanto, apresentava uma visão idílica e neoclássica dos povos insulares, homogeneizando culturas e transformando um encontro colonial violento — que culminou na morte de Cook — em uma paisagem exótica e agradável. O objetivo, segundo o próprio criador, era “excitar a imaginação sem sobrecarregá-la”. Em outras palavras, era uma forma de decoração que apagava a violência de sua própria origem.
Essa normalização da violência através da estética encontra um paralelo sombrio no sistema prisional vitoriano. O ensaio resgata a história da esteira penal (penal tread-wheel), um dispositivo que inicialmente moía grãos, mas que evoluiu para uma pura máquina de tortura, forçando prisioneiros a caminhar por horas a fio “moendo ar”. As fotografias da época, com homens encapuzados marchando em círculos para “reverter o tempo”, mostram a materialidade da punição. A esteira moderna, um símbolo de saúde e disciplina pessoal, carrega em seu DNA mecânico o eco desse instrumento de controle e aniquilação do espírito.
Reescrevendo as Margens
Se a arte dominante pode ocultar a violência, a arte das margens pode se tornar uma arma para expô-la. O ensaio de Minor resgata a figura de Lorina Bulwer, internada em um asilo para “mulheres idosas” em 1893. Ali, onde era forçada a desfiar cordas de navio com as mãos, Bulwer usou agulha e linha para bordar textos furiosos de até quatro metros de comprimento. Em suas peças, sem pontuação e em letras maiúsculas, ela denunciava as condições do asilo e nomeava seus algozes. O bordado, um ofício tradicionalmente feminino e silencioso, tornou-se seu megafone, uma forma de inscrever sua verdade em um mundo que tentava silenciá-la.
Esse ato de reescrever a narrativa é espelhado por artistas contemporâneas que revisitam o papel de parede de Dufour. Rachelle Dang, em 2017, fotografou, distorceu e colou digitalmente os painéis originais, justapondo-os a gaiolas que simbolizavam o transporte de frutas-pão do Pacífico para a Europa — uma metáfora para a exploração de recursos. Dois anos depois, a artista neozelandesa Lisa Reihana recriou o papel de parede como uma animação digital massiva, reintroduzindo filmagens de povos insulares contemporâneos e suas línguas. Reihana renomeou a obra para “In Pursuit of Venus [infected]”, expondo a dupla camada do original: a busca astronômica pelo planeta Vênus e a “perseguição” violenta às mulheres do Pacífico, tratadas como objetos sexuais pelos marinheiros de Cook.
O trabalho de Sarah Minor é um convite à leitura crítica do mundo visual. Ele nos força a olhar para além da superfície decorativa e perguntar sobre as histórias que as imagens contam e, mais importante, as que elas omitem. Da prisão à galeria de arte, da parede do salão à tela do celular, a disputa pela narrativa é contínua. Entender a genealogia de uma imagem ou de um objeto não é um exercício acadêmico, mas uma ferramenta para decodificar o poder embutido no nosso cotidiano.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Lit Hub





