A era da paciência na Berkshire Hathaway pode estar chegando ao fim. Greg Abel, que sucedeu o lendário Warren Buffett no comando do conglomerado, começou a utilizar a gigantesca pilha de caixa da empresa, que encolheu de um recorde de US$ 380 bilhões para US$ 365 bilhões no último trimestre. A companhia voltou a ser compradora líquida de ações, acelerou as recompras e fechou aquisições, marcando uma mudança de ritmo em relação aos últimos anos de Buffett.
O movimento reacende um debate crucial sobre o futuro da Berkshire. A questão é se Abel está abandonando a disciplina de esperar pela barganha perfeita — o “fat pitch”, no jargão de Buffett — ou se está apenas adaptando a estratégia a um novo cenário. A preocupação, vocalizada por figuras como Michael Burry, de “A Grande Aposta”, é que os investimentos sejam mais um recado ao mercado para firmar sua gestão do que uma alocação de capital puramente fundamentalista.
A sombra do Oráculo
Segundo reportagem do Business Insider, a principal apreensão de Burry é que o sucessor de Buffett não resista a agir antes da hora. “Acredito que esse medo se tornou realidade”, escreveu o investidor, sugerindo que os primeiros passos de Abel parecem mais “movimentos de enquadramento do que de investimento”. A preocupação é que a pressão para mostrar serviço e tranquilizar acionistas esteja falando mais alto que a busca por valor.
Os números do trimestre dão força a essa leitura. A Berkshire gastou US$ 20 bilhões líquidos em ações, após 14 trimestres consecutivos como vendedora líquida. Além disso, recomprou US$ 4,6 bilhões de seus próprios papéis, o maior volume trimestral desde 2021, e continuou o programa em julho. No front de fusões e aquisições, a empresa fechou as compras da OxyChem e da Taylor Morrison, injetando mais de US$ 16 bilhões em caixa no mercado.
Continuidade ou ruptura?
No entanto, é cedo para decretar uma ruptura. O próprio Buffett, que permanece como chairman, iniciou a compra de ações da Alphabet no ano passado, uma posição que foi ampliada em US$ 10 bilhões neste trimestre. O acordo com a OxyChem também foi fechado sob sua gestão. Abel, por sua vez, prometeu seguir a estratégia do mestre e declarou que o consulta em todas as decisões importantes. A influência de Buffett, aos 96 anos, segue imensa.
A redução no caixa, embora significativa, representa apenas um pequeno dente na montanha de dinheiro da Berkshire. E sem o negócio pontual com a Alphabet, o volume de compras de ações teria sido mais modesto. A dúvida que permanece é se Abel está de fato forjando um novo caminho ou apenas executando um plano com o aval de seu mentor, adaptando a filosofia que transformou a Berkshire em um conglomerado de US$ 1 trilhão.
Abel começa a deixar sua marca, mas a escala da empresa exige movimentos audaciosos para gerar impacto real. O mercado agora observa se a mudança de ritmo representa uma nova filosofia de alocação de capital ou apenas uma adaptação tática. A resposta definirá o próximo capítulo da Berkshire Hathaway.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Business Insider





