O varejo farmacêutico brasileiro atravessa um momento de reavaliação intensa, marcado pela desvalorização acentuada das ações da RD Saúde (RADL3). Segundo relatório do Itaú BBA, a queda de 40% acumulada desde meados de fevereiro sinaliza um pessimismo que, na visão dos analistas, pode ter superado os fundamentos operacionais da companhia. O banco revisou seus modelos de projeção, buscando equilibrar o impacto das novas dinâmicas de consumo com a resiliência demonstrada pelo modelo de negócio da rede.

O cenário atual de desconfiança é impulsionado, em grande medida, pelas incertezas sobre a comercialização de medicamentos à base de GLP-1, como o Mounjaro. Enquanto o mercado de capitais reagiu com cautela à estabilização do faturamento desses fármacos, o BBA aponta para o crescimento do mercado informal de manipulados como o principal responsável pela pressão sobre as vendas das grandes redes, um desafio que exige maior clareza regulatória.

O impacto das canetas emagrecedoras

A ascensão da categoria de emagrecedores trouxe uma mudança estrutural na rentabilidade das farmácias. O lucro bruto por caixa de medicamentos similares, que ocupam espaço crescente nas prateleiras, é significativamente inferior ao dos produtos de referência, como Ozempic e Wegovy. Essa transição gerou um choque inicial na percepção dos investidores, acostumados a margens mais robustas, mas que agora observam uma diluição do ganho nominal por unidade vendida.

Contudo, a análise técnica sugere que o ganho de escala compensará essa compressão de margem a médio prazo. A RD Saúde, ao manter uma exposição privilegiada ao público de alta renda e uma estrutura de capital capaz de financiar o giro desses estoques, posiciona-se para capturar uma fatia relevante do mercado de GLP-1, projetada para saltar de 12% para 19% até 2030.

A resiliência do varejo físico

Para além do ruído gerado pelos medicamentos de alta procura, o desempenho das lojas físicas da RD Saúde mantém uma trajetória de solidez. O lucro bruto por ponto de venda apresentou um crescimento consistente, com avanços de 9,2% no quarto trimestre de 2025 e 9,7% no primeiro trimestre de 2026, isolando os efeitos sazonais ou específicos de categorias altamente competitivas.

Essa métrica é considerada pelo BBA como o indicador mais fidedigno da saúde operacional da rede. Ela reflete a capacidade de gestão em manter a eficiência operacional em meio a um ambiente macroeconômico desafiador, onde a pressão sobre os custos e a concorrência por preços exige um controle rigoroso sobre a margem de cada categoria de produto vendida.

Perspectivas para o investidor

O patamar de negociação atual, situado entre 15 e 16 vezes o Preço sobre Lucro (P/L) projetado, é interpretado pelos analistas como uma barreira técnica importante. Historicamente, essa faixa tem atuado como um piso para o papel, reduzindo o espaço para novas quedas bruscas a menos que ocorram mudanças drásticas nos fundamentos macro ou regulatórios.

Com a revisão das estimativas de lucro líquido para 2027, o Itaú BBA posiciona-se no limite superior das expectativas de mercado, projetando valores próximos a R$ 1,9 bilhão. A tese é de que as variáveis operacionais já estão suficientemente precificadas, minimizando o risco de surpresas negativas nos próximos balanços trimestrais.

O papel da regulação

Um fator decisivo para a reversão do cenário no setor farmacêutico reside na atuação dos órgãos reguladores frente ao mercado de manipulação. Com um volume estimado em R$ 12 bilhões para 2026, o crescimento dos laboratórios de manipulação sem registro oficial impõe uma concorrência desleal que pressiona as margens das grandes redes de varejo, que seguem critérios rígidos de conformidade e tributação.

O mercado aguarda, portanto, sinais de uma fiscalização mais incisiva sobre esses estabelecimentos. Caso a regulação se torne mais rigorosa, o fluxo de demanda que hoje se pulveriza no setor informal poderia retornar às drogarias tradicionais, reequilibrando a participação de mercado e permitindo uma recuperação das margens brutas que, segundo o BBA, podem subir de 17% para 21%.

A trajetória da RD Saúde nos próximos trimestres será um teste de resiliência tanto para a gestão da companhia quanto para a tese de investimento no varejo de saúde brasileiro. A dúvida central permanece sobre a velocidade com que o mercado informal será contido e se o volume de vendas de genéricos será suficiente para manter o crescimento do lucro bruto em um cenário de ticket médio pressionado. Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney