A Aena, gigante espanhola de infraestrutura aeroportuária, deu um passo calculado em sua agenda de sustentabilidade ao renovar e, em alguns casos, elevar o nível de certificação de carbono de nove de seus aeroportos na Espanha. A medida, que inclui terminais estratégicos como Madrid-Barajas e Barcelona-El Prat, foi validada pelo programa Airport Carbon Accreditation (ACA), a principal chancela do setor, mantida pelo Conselho Internacional de Aeroportos (ACI).
O movimento não é isolado. Ele faz parte da ambiciosa meta da companhia de atingir emissões líquidas zero até 2030. Para o leitor brasileiro, a notícia tem relevância direta: a Aena é a operadora de 11 aeroportos no país, incluindo o disputado aeroporto de Congonhas, em São Paulo. A estratégia adotada na Europa funciona, portanto, como um laboratório e um indicativo claro da direção que suas operações globais, inclusive as brasileiras, devem seguir.
O que significa a certificação em níveis
O programa ACA não é um selo binário de "sim ou não". Trata-se de um sistema de níveis que reflete a maturidade da gestão de carbono de um aeroporto. A promoção dos aeroportos de Alicante, Málaga e Ibiza para o Nível 4, por exemplo, é significativa. Para chegar lá, não basta medir e reduzir as próprias emissões; é preciso demonstrar um papel ativo em engajar terceiros — como companhias aéreas e prestadores de serviço em solo — na agenda de descarbonização.
Outros aeroportos, como o de Menorca (Nível 3) e Lanzarote (Nível 2), mostram estágios diferentes da jornada. O Nível 2 exige um plano de gestão de carbono, enquanto o Nível 3 já demanda a comprovação de reduções efetivas. Essa estrutura granular revela que a descarbonização aeroportuária é um processo complexo, que avança do controle direto (escopo 1 e 2) para a influência sobre toda a cadeia de valor (escopo 3), onde reside o maior desafio.
O recado para o Brasil
A Aena planeja ter 21 de seus aeroportos espanhóis credenciados no programa até 2026, mirando o Nível 5 — o mais alto — até 2030. A leitura aqui é que a companhia está usando sua operação doméstica como ponta de lança para desenvolver e validar um playbook de sustentabilidade que possa ser replicado globalmente. Com uma presença tão massiva no Brasil, é inevitável que essa expertise e essas metas cruzem o Atlântico.
Isso significa que a pressão por práticas mais sustentáveis deve aumentar sobre todo o ecossistema que orbita os aeroportos concedidos à Aena no Brasil. Fornecedores, parceiros comerciais e até mesmo as companhias aéreas que operam nesses terminais sentirão o efeito da estratégia da operadora. O avanço na Espanha não é apenas uma notícia sobre gestão ambiental, mas um sinalizador das novas exigências operacionais e de governança que se tornarão padrão no setor.
A jornada da Aena para zerar suas emissões líquidas está em curso, e as certificações são marcos importantes nesse caminho. O desafio, contudo, vai além dos selos. A verdadeira prova de fogo será a capacidade de traduzir esses planos em reduções absolutas de emissões, especialmente aquelas que fogem ao seu controle direto, transformando a infraestrutura aeroportuária de um mero ponto de passagem em um agente ativo da transição energética.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Forbes España




