A Associação Corporativa de Agencias de Viagens Especializadas (Acave), da Espanha, se prepara para debater o futuro de seus associados. O XXVI Foro Acave, agendado para o fim de setembro em Barcelona, reunirá empresários e especialistas para discutir os rumos do setor, segundo reportagem da Forbes Espanha. Os temas centrais são um retrato fiel das pressões que a indústria enfrenta globalmente: sucessão empresarial, o impacto da inteligência artificial, a reputação do turismo e o papel das agências no desenvolvimento local.

A escolha da pauta não é acidental. Ela reflete um setor encurralado entre uma disrupção tecnológica iminente e uma crise de imagem que ganha força. De um lado, a IA generativa ameaça automatizar a curadoria e a venda de pacotes, função central do agente de viagens. Do outro, a crescente percepção negativa do “overtourism” — o turismo predatório — coloca em xeque o próprio produto que vendem. O evento em Barcelona serve como um microcosmo das ansiedades e da busca por um novo propósito no setor.

A IA como ameaça e oportunidade

O programa do fórum destaca uma palestra sobre como a inteligência artificial pode transformar a atividade das agências até 2035. A discussão encapsula a dualidade da tecnologia: ela é tanto uma ferramenta de otimização quanto uma potencial força de substituição. Para as agências, o desafio é ir além do uso da IA para tarefas de back-office e integrá-la para criar uma nova camada de valor.

A leitura aqui é que a tecnologia pode ser a resposta para a criação de roteiros ultracustomizados e experiências complexas que as grandes plataformas online, focadas em volume, têm dificuldade em oferecer. No Brasil, onde players como Decolar e Hurb já redefiniram as expectativas do consumidor, a adoção inteligente da IA pode ser a única forma de as agências tradicionais se manterem relevantes, migrando de um papel transacional para um de consultoria especializada.

A licença social para operar

O outro pilar do debate é a “reputação do turismo”. O tema é um eufemismo para a crescente tensão entre a indústria do turismo e as comunidades locais em destinos saturados, como a própria Barcelona. A presença de representantes de diversos órgãos de turismo na discussão indica que o problema escalou de reclamações pontuais para uma questão estratégica.

A questão para as agências é definir seu papel nesse novo cenário. Elas continuarão a ser canais de venda que alimentam o turismo de massa ou podem se posicionar como curadoras de um turismo mais consciente e sustentável? A pauta do evento sugere uma tentativa de abraçar a segunda opção, discutindo como as agências podem diversificar fluxos e dar visibilidade a novos destinos, gerando impacto social positivo.

No fundo, os dois grandes temas do fórum estão interligados. O futuro da agência de viagens pode residir justamente na intersecção entre tecnologia e sustentabilidade: usar a IA não para vender mais do mesmo, mas para criar e escalar um turismo de maior valor agregado e menor impacto negativo. A sobrevivência do setor dependerá da capacidade de transformar essa visão em um modelo de negócio viável.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España