Em um movimento pragmático que foge das complexidades do programa europeu de caça de sexta geração, a Airbus, em parceria com a americana Kratos, realizou o primeiro voo europeu do U740 Valkyrie. O drone, descrito como um "Frankenstein" tecnológico, combina a plataforma americana XQ-58A Valkyrie com o sistema de controle MARS desenvolvido pela Airbus, que incorpora inteligência artificial para gerenciar missões e coordenar aeronaves tripuladas e não tripuladas.

A urgência alemã e o plano B

A necessidade de modernização da Luftwaffe alemã é premente. Com o horizonte de 2029 marcado pela guerra na Ucrânia e um cenário de segurança europeu deteriorado, Berlim busca equipar suas Forças Armadas com capacidades de combate de alta intensidade. A introdução de drones de combate a jato é vista como crucial para expandir a capacidade ofensiva e assumir missões de risco sem expor pilotos. A Alemanha, que enfrentou atrasos políticos e de aquisição no desenvolvimento de aeronaves não tripuladas armadas, vê no U740 Valkyrie uma oportunidade de acelerar esse processo, aproveitando uma tecnologia existente em vez de iniciar um desenvolvimento do zero.

Tecnologia híbrida para o campo de batalha

A essência do projeto reside na sinergia entre tecnologias distintas. A Kratos fornece o drone XQ-58A Valkyrie, conhecido por oferecer capacidades militares a um custo competitivo. A Airbus, por sua vez, desenvolve o sistema MARS (Modular Advanced Autonomous System), que gerencia as funções autônomas e a inteligência artificial MindShare, projetada para orquestrar grupos de aeronaves sob supervisão humana. Embora o voo inaugural tenha testado a plataforma e suas manobras, a integração completa do sistema MARS ainda depende de futuras validações. A proposta visa garantir aos clientes europeus controle sobre dados e funções essenciais, um ponto de discórdia em programas colaborativos maiores.

Um novo escudeiro para o Eurofighter

O U740 Valkyrie é concebido para operar de forma autônoma ou sob o comando de caças tripulados, como o Eurofighter. A Airbus, em colaboração com a israelense Rafael, trabalha para que o Eurofighter possa direcionar esses drones através de atualizações de aviônica e conectividade. A ideia é que os drones atuem como "escudeiros", antecipando-se aos caças, transportando armamento, ampliando a cobertura de sensores e penetrando em zonas de alto risco. Com uma bodega interna de armamento, capacidade para mais de 5.000 km de alcance e um teto operacional de 13.700 metros, o U740 apresenta especificações relevantes para missões de longo alcance e penetração.

Descolagem sem pista e o futuro da defesa europeia

Uma característica notável do U740 é sua capacidade de decolagem assistida por foguete, dispensando pistas convencionais. Essa flexibilidade permitiria a dispersão das aeronaves em locais variados, reduzindo a vulnerabilidade a ataques. A Alemanha já possui um precedente histórico com sistemas de descolagem de comprimento zero para caças F-104G Starfighter durante a Guerra Fria. Este projeto surge em um momento de incerteza para o Future Combat Air System (FCAS), programa europeu liderado por França, Alemanha e Espanha, que enfrenta disputas industriais. A abordagem da Airbus com o U740 pode representar um caminho alternativo, mais ágil e focado nas necessidades imediatas de países como a Alemanha, redefinindo o futuro da colaboração aeroespacial na Europa.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Xataka