A Airbus Defence and Space oficializou a criação do 'Team Gen 6', uma coalizão industrial que reúne empresas alemãs e espanholas com o objetivo de projetar um caça de sexta geração. O movimento surge como uma resposta direta ao esgotamento do Future Combat Air System (FCAS), o ambicioso programa trilateral lançado em 2017 que, apesar de um orçamento estimado em 100 bilhões de euros, não conseguiu avançar para a fase de protótipos funcionais. A defunção do FCAS foi comunicada formalmente pelo chanceler alemão Friedrich Merz ao presidente francês Emmanuel Macron, sinalizando o fim de uma década de esforços conjuntos que sucumbiram a impasses políticos e industriais.

Segundo reportagem do El Confidencial, o colapso do FCAS não teve origem em limitações tecnológicas, mas em divergências sobre liderança e requisitos operacionais. A Dassault Aviation, historicamente centralizadora, exigiu o comando absoluto do desenvolvimento, enquanto a Airbus buscava uma parceria de igualdade técnica. Além disso, as exigências francesas de um aparelho capaz de operar em porta-aviões e transportar armamento nuclear colidiram com as necessidades alemãs, tornando o projeto inviável sob a estrutura original.

O dilema da escala industrial

A fragmentação da base industrial europeia é o principal desafio para o Team Gen 6. Alemanha e Espanha possuem, juntas, uma demanda projetada de 250 a 300 aeronaves, um volume considerado insuficiente para sustentar os custos proibitivos do desenvolvimento de uma plataforma de sexta geração sem parceiros adicionais. A história recente da indústria de defesa europeia reforça esse padrão: em 1985, a França abandonou o Eurofighter para desenvolver o Rafale, repetindo um ciclo de divisões que enfraquece a capacidade de escala do continente.

A Airbus agora busca ativamente a entrada da Suécia e da Saab na coalizão, visando integrar expertise em sistemas de alerta precoce e aeronaves de combate. O objetivo de Michael Schoellhorn, CEO da Airbus Defence, é claro: evitar que a Europa repita a compra massiva de caças americanos, como ocorreu com a quinta geração. No entanto, a incerteza política permanece, pois o Team Gen 6 ainda carece de contratos formais e depende de decisões governamentais que, se não ocorrerem até o final do ano, podem inviabilizar o cronograma para a década de 2040.

Mecanismos de soberania tecnológica

O conceito apresentado pela Airbus foca em uma aeronave de peso médio integrada a drones autônomos, com testes de comunicação já em curso utilizando Eurofighters e Learjets adaptados. O mecanismo de 'enxame' é a peça central da estratégia, onde a capacidade de mando tático compensa a menor escala de produção. A empresa tenta contornar a concorrência interna entre modelos como o Wingman e o MQ-28 Ghost Bat, argumentando que a especialização em nichos é um erro que a Europa não pode mais se dar ao luxo de cometer.

Ao mesmo tempo, a França optou por seguir um caminho autônomo, iterando sobre o Rafale enquanto planeja seu próprio caça de nova geração. O Banco de França, contudo, já alertou que o déficit fiscal do país em 2026 impõe limites severos a investimentos de defesa dessa magnitude. A tentativa francesa de financiar o projeto via exportações do Rafale é vista com cautela, dado o ambiente macroeconômico restritivo.

Implicações para o ecossistema de defesa

A ausência de uma estratégia unificada coloca a Europa em uma posição de vulnerabilidade diante do avanço dos programas de sexta geração americanos e chineses. A pressão sobre as empresas europeias é constante para que entreguem resultados concretos, sob pena de perderem relevância no mercado global de defesa. A colaboração com o Global Combat Air Program (GCAP), liderado pelo Reino Unido, Japão e Itália, surge como uma possibilidade remota, embora as prioridades de design para aeronaves pesadas de longo alcance do GCAP difiram do perfil de peso médio buscado pelo Team Gen 6.

Para os stakeholders, o cenário é de urgência. Reguladores e governos enfrentam o dilema entre a soberania industrial e a realidade orçamentária. O insucesso em consolidar uma base tecnológica comum pode levar a uma dependência permanente de fornecedores externos, minando a autonomia estratégica que a União Europeia busca consolidar há décadas.

O horizonte de incertezas

O que permanece incerto é a capacidade de Alemanha e Espanha em converter conceitos visuais e alianças empresariais em um cronograma de produção viável. A falta de um contrato de Fase 2, similar ao que fracassou no FCAS, deixa o projeto em um limbo político que preocupa analistas do setor.

O monitoramento das próximas cúpulas europeias revelará se há vontade política para financiar um programa que, embora essencial para a indústria, enfrenta resistência fiscal e disputas de soberania nacional. O relógio corre, e a necessidade de uma resposta europeia coordenada nunca foi tão premente diante da modernização acelerada das potências militares globais.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · El Confidencial — Tech