Paris, por alguns dias, transformou-se em um santuário. Na Place d’Iéna, a cineasta franco-senegalesa Alice Diop ergueu um espaço de cura, uma instalação em larga escala intitulada "Geste de Consolation" (Gesto de Consolação), como parte da comissão anual da Miu Miu durante a Art Basel Paris. A obra é uma extensão de sua pesquisa contínua sobre as representações de mulheres negras ao longo do tempo, um diálogo profundo entre moda, arte e cinema que convida à pausa e à reflexão em meio ao burburinho cultural da capital francesa.

A jornada proposta por Diop se inicia com "Bona, Charlottesville, Virginia" (2015), de Zanele Muholi, uma fotografia em preto e branco da série "Somnyama Ngonyama" (Salve a Leoa Escura). Nela, a artista se olha no espelho, mas seu rosto é visível apenas através do reflexo, uma introdução sutil à complexidade da identidade e da auto-percepção. Seguindo adiante, o espectador encontra "[Sans titres]", um novo filme de Diop. A obra começa com trechos de filmes etnográficos que retratam mulheres africanas como o "outro", um olhar colonizador que as objetifica, e transita para imagens de mulheres negras empoderadas, reconfigurando narrativas e reivindicando agência.

O Refúgio da Palavra e da Imagem

Um dos pilares da instalação é "Chambre à soi" (Quarto Próprio), descrita por Diop como "uma sala de estar para uma mulher negra pensante – um espaço de pausa, aprendizado e encontro". Este espaço, que remete a um refúgio intelectual e emocional, é inspirado no próprio escritório da cineasta e adornado com tapetes que evocam os motivos visuais de Mary Lee Bendolph, uma renomada quilteira de Gee’s Bend. Ali, os visitantes são convidados a mergulhar em livros de autoras como Christina Sharpe, Virginia Woolf e Jean Genet, além de monografias de artistas visuais proeminentes. Essa curadoria literária e artística não é aleatória; ela tece uma rede de referências que sustentam a imaginação política e a subjetividade negra, oferecendo um contraponto à invisibilidade histórica e à representação distorcida.

Diop, que estudou antropologia e história antes de se dedicar ao cinema, explica que sua formação a levou a confrontar as imagens etnográficas que moldaram a percepção sobre a África e seus povos. "Minha formação em cinema foi desenvolvida contra elas", afirma. "A forma como essas imagens mostram e encenam mulheres negras me diz como eu fui construída e revela como me tornei cineasta, em grande parte, para me limpar e me curar." A instalação "Geste de Consolation" é, portanto, um ato de reparação visual e conceitual, um esforço para reescrever e enriquecer o arquivo da representação.

Diálogo Sonoro e Corporal

Entre o "Chambre à soi" e a imponente escultura "Sentinel (Mami Wata)" (2020–21) de Simone Leigh, que conclui a experiência, encontra-se um espaço dedicado à performance. Ali, apresentações como a de Angel Bat Dawid e as Sistazz of the Nitty Gritty se alternam com "Prophétique", uma peça duracional de Nadia Beugré. Em "Prophétique", performers leem trechos de textos fundamentais para Diop e Beugré, em um diálogo que evoca cura e resistência. Ouvir as palavras de Saidiya Hartman, Gayl Jones, Lucille Clifton, June Jordan, Toni Morrison e tantas outras, em um contexto de escuta ativa e compartilhada, representa um alívio bem-vindo em meio à intensidade da semana de arte em Paris.

A colaboração com a compositora Angel Bat Dawid e Naima Nefertari para a trilha sonora de "[Sans titres]" foi um marco para Diop. "Esta é a primeira vez que trabalhei com um compositor e tive alguém compondo música original para um dos meus projetos", revela. A música, que permeia o filme, não é meramente um acompanhamento, mas uma ferramenta essencial para dar o ponto de vista sobre como as imagens deveriam ser vistas. "A música deu-nos o ponto de vista sobre como eu queria que essas imagens fossem olhadas", explica Diop. A trilha sonora nasceu de um processo colaborativo intenso, onde as três mulheres assistiram juntas às imagens, choraram, rezaram e compuseram de forma orgânica, resultando em uma performance ao vivo que se tornou a única "narração" possível, um espelho sonoro para a dor e a beleza retratadas.

Implicações e o Caminho Adiante

A arquitetura da Place d’Iéna foi cuidadosamente pensada por Diop para guiar o visitante por uma trajetória de cura. Cada objeto exposto, desde a fotografia de Muholi até a escultura de Leigh, passando pelo filme de Diop e o espaço de performance, foi posicionado com precisão. "É um caminho da fotografia para a escultura", descreve a cineasta, "uma trajetória narrativa em direção ao cuidado, à cura." A obra não impõe uma experiência única, mas permite que cada visitante navegue por essa jornada pessoal, onde a arte se torna um espelho para a própria subjetividade e um portal para a consolação.

A iniciativa da Miu Miu, sob a curadoria de Verde Visconti, ao convidar Diop para esta comissão, demonstra um movimento crescente da indústria da moda em se engajar com a arte e o cinema de forma mais profunda. Ao apoiar artistas que exploram questões sociais e de representação, marcas como a Miu Miu não apenas enriquecem seu próprio universo cultural, mas também contribuem para a criação de espaços onde narrativas marginalizadas podem emergir e ser celebradas. O "Geste de Consolation" de Alice Diop é um testemunho do poder transformador da arte em oferecer não apenas beleza, mas também um refúgio, um espelho para a alma e um convite à cura coletiva.

O que resta, ao final dessa jornada sensorial e intelectual, é a ressonância das imagens e das palavras, um eco de força e vulnerabilidade que permanece. A obra de Diop nos convida a refletir sobre as narrativas que consumimos e aquelas que precisamos criar, sobre a importância de olhar e ser olhado com dignidade. A pergunta que ecoa é: de que outras formas a arte pode continuar a ser esse espaço vital de cura e afirmação para as mulheres negras e para todos nós?

Com reportagem de Brazil Valley

Source · ARTnews