A euforia de 2021 no mercado de criptomoedas levou muitos a acreditar que o principal risco era não possuir nenhum ativo digital. Naquele novembro, criptomoedas como Solana e Cardano, com redes funcionais, equipes dedicadas e planos ambiciosos, eram vistas como apostas sólidas de longo prazo. A lógica de comprar e manter, comum no mercado tradicional, parecia aplicável. No entanto, quase cinco anos depois, a realidade se mostrou implacável para a maioria. Segundo dados do CoinMarketCap, compilados até 21 de outubro, aproximadamente dois terços das 100 maiores altcoins daquele período já perderam mais de 90% de seu valor. Quase metade recuou mais de 95%, e 70 atingiram seus menores preços desde o pico de 2021 ainda neste ano. Em contraste, o Bitcoin registrou uma valorização de cerca de 30% no mesmo período.
A Lição da Volatilidade: Projetos Sólidos Não Garantem Retorno
A queda acentuada de tantas altcoins levanta um questionamento fundamental: bons projetos, com equipes fortes, tecnologia útil e redes em crescimento, não se traduzem automaticamente em bons investimentos em tokens. Jim Ferraioli, diretor de pesquisa e estratégia de moedas digitais no Schwab Center for Financial Research, ressalta que, embora esses fatores sejam positivos, eles não garantem que o token em si capturará o valor econômico criado pela rede. Em 2021, muitos investidores negligenciaram essa distinção, focando mais no potencial de crescimento do projeto do que na mecânica de valorização do ativo digital.
Mecanismos de Desvalorização: Oferta e Demanda em Jogo
Entre as 81 criptomoedas que perderam pelo menos 70% de seu valor, a oferta circulante aumentou em cerca de 50% em média, enquanto o valor de mercado total despencou aproximadamente 95%. Alice Liu, chefe de pesquisa do CoinMarketCap, aponta que a demanda, e não apenas a emissão de novos tokens, é o principal motor dessa desvalorização. "A explicação popular é o destravamento de tokens, mas os dados apontam para a demanda", disse Liu. Ela observou que a moeda que mais perdeu emitiu cerca de 50% mais tokens desde 2021, enquanto o mercado reduziu em 95% o que estava disposto a pagar pelo projeto como um todo. Isso sugere que, mesmo sem o aumento da oferta, muitos desses ativos teriam sofrido desvalorizações significativas.
Implicações para Investidores: O Mercado Mudou de Mãos
O mercado de altcoins não morreu, ele mudou de mãos. Quando o capital retornou para esses ativos, ele não fluiu necessariamente para os mesmos projetos. Cerca de 39 das 100 maiores altcoins atuais nem sequer existiam ou eram listadas no CoinMarketCap em novembro de 2021. Ferraioli também destaca a proliferação de tokens, argumentando que a maioria das criptomoedas possui pouco valor fundamental, com novas sendo criadas diariamente. Uma queda de 90% em relação a um pico anterior não garante que o preço atual seja uma barganha, especialmente se a avaliação anterior era insustentável. A comparação se torna ainda mais complexa devido ao aumento da oferta. No caso de Solana (SOL), por exemplo, o valor de mercado caiu apenas cerca de 10% em relação a novembro de 2021, mas com a oferta quase dobrando, o preço do SOL recuou 54%.
Perguntas em Aberto: Como Identificar um Bom Investimento?
Para investidores, a questão central é como identificar um projeto com potencial de valorização duradoura. Ferraioli sugere um framework semelhante ao usado para ações: líderes de mercado, receita recorrente, efeitos de rede e economias de escala. Para um token, isso se traduz em utilidade, escassez e efeitos de rede, além de um caso de uso claro e em crescimento. É crucial entender o mecanismo que conecta o crescimento da rede à demanda pelo token, seja por meio de taxas queimadas ou compartilhadas com detentores, oferta controlada ou demanda que exija a compra e manutenção do token. A análise fundamentalista ainda é valiosa, mas não é suficiente. É preciso compreender o fluxo de valor para o token, a velocidade de mudança da oferta e as expectativas já embutidas no preço. O futuro dirá quais dos atuais líderes de altcoins conseguirão transformar crescimento em demanda sustentável para seus tokens.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune





