A Architectural Association (AA), uma das escolas de arquitetura mais influentes do mundo, revelou os projetos vencedores do Diploma com Honras para o ano acadêmico de 2025-2026. Entre as propostas, destaca-se o trabalho de Jing Yun Zhou, que propõe um retrofit radical em blocos de habitação recém-construídos em Londres, criticando a transformação desses espaços em ativos financeiros que negligenciam o bem-estar dos moradores.

Segundo reportagem da Dezeen, a mostra, que integra o evento Projects Review 2026, reúne cinco estudantes premiados cujos projetos buscam redefinir a relação entre arquitetura, infraestrutura e território. As intervenções exploram desde a ressignificação de paisagens pós-industriais até a utilização de dados urbanos como ferramentas de engajamento público, afastando-se de modelos de desenvolvimento urbano estritamente voltados à acumulação de capital.

A falha da habitação como ativo financeiro

O projeto de Jing Yun Zhou aponta uma falha estrutural no mercado imobiliário contemporâneo de Londres. Ao tratar unidades habitacionais como "hot assets", o setor teria otimizado o design para a valorização patrimonial, resultando em edifícios que sofrem com problemas crônicos de superaquecimento e isolamento social. A proposta de retrofit não se limita a reparos estéticos, mas sugere uma reconfiguração física radical.

Ao abrir fachadas de tijolos e transformar corredores escuros em áreas de convivência, a intervenção busca devolver a agência aos moradores. A estratégia de Zhou é integrar a reparação térmica à criação de espaços habitáveis que filtram o ar e a luz, desafiando a lógica de que edifícios são apenas máquinas de lucro. O projeto propõe que a arquitetura deve ser, acima de tudo, um suporte para a interação humana e a habitabilidade.

Urbanização ociosa e novos territórios

Outro destaque da mostra é o trabalho de Sacha Trouiller, que investiga a "urbanização ociosa" no território de Etang de Berre, na França. Em vez de buscar uma solução definitiva para a periferia, o projeto propõe intervenções que alteram a percepção da paisagem e das infraestruturas monumentais ali existentes. A análise sugere que, em territórios periféricos, a arquitetura deve gerar novos níveis de existência, em vez de apenas resolver problemas habitacionais.

Complementando essa visão sobre território, Jay Chew investiga a prática de ocupação nas Terras Altas de Kelabit, na Malásia. O projeto questiona os regimes estatais de propriedade, argumentando que a territorialidade deveria ser exercida através do trabalho contínuo e da criação de marcos coletivos, e não apenas por garantias legais. O trabalho de Chew propõe uma rede de marcadores arquitetônicos que desafiam a visão da terra como mera mercadoria.

Dados e performance como infraestrutura

O projeto de Changjin Kweon para a estação de Nine Elms, em Londres, introduz o conceito de "Pulse Logic". A proposta utiliza dados urbanos coletados em tempo real — como densidade de pedestres e condições climáticas — para alterar o estado físico da arquitetura, como ventilação e iluminação. O objetivo é transformar a infraestrutura em um bem público, onde o comportamento coletivo molda o ambiente de forma transparente e legível.

Paralelamente, Ruby Neal explora a dimensão teatral em Stoke-on-Trent, utilizando resíduos industriais, como escória de alto-forno, para construir paredes de terra batida. A proposta cria espaços onde a vida cotidiana e a performance se sobrepõem, utilizando a arqueologia industrial local para ancorar a estrutura no terreno. Ambas as propostas reforçam a ideia de que a arquitetura deve ser um agente de reorientação social e cultural.

O futuro da prática arquitetônica

As propostas apresentadas pela Architectural Association para 2026 desenham um cenário onde a arquitetura se volta para a responsabilidade social e a resiliência ambiental. A tensão entre os modelos de desenvolvimento impostos pelo mercado e as necessidades de comunidades locais permanece como o desafio central para os novos profissionais da área.

O que se observa é uma transição de foco: do objeto arquitetônico como produto acabado para a arquitetura como um processo contínuo e público. A capacidade desses projetos de influenciar o mercado imobiliário e as políticas públicas ainda é uma questão em aberto, mas o debate está posto.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Dezeen