A escassez de órgãos para transplante é um dos dilemas mais críticos da medicina moderna, resultando em milhares de mortes evitáveis anualmente. Enquanto o sistema atual de doações voluntárias é amplamente aceito, a lacuna entre a oferta e a demanda continua a crescer, forçando especialistas a repensar os fundamentos éticos da alocação de recursos vitais. Alvin Roth, economista laureado com o Nobel e pioneiro em design de mercados, argumenta que a proibição estrita de pagamentos por doações pode estar custando vidas preciosas.

Segundo reportagem da Persuasion, Roth sustenta que o design de mercados — a organização consciente das regras pelas quais transações ocorrem — é uma ferramenta poderosa para a cooperação humana. Ao analisar o mercado de transplantes renais, o economista aponta que, embora o sistema de trocas pareadas entre doadores vivos tenha aumentado o número de cirurgias bem-sucedidas, ele ainda é insuficiente para suprir a demanda global. O debate, agora, volta-se para a viabilidade moral e prática de permitir que o Estado financie a doação de rins, transformando o que hoje é um crime em um ato de generosidade recompensada.

A falha estrutural dos mercados de órgãos

Historicamente, a economia tem sido vista como uma disciplina desprovida de moral, mas a prática de design de mercados demonstra que toda estrutura econômica é moldada por escolhas éticas e sociais. Roth enfatiza que, quando um mercado é proibido, ele não desaparece; ele é empurrado para a sombra. A proibição de pagamentos por órgãos resultou em mercados negros operando fora da supervisão médica, onde a qualidade dos procedimentos é baixa e os riscos para doadores e receptores são elevados.

O paralelo com a proibição do álcool nos Estados Unidos no início do século XX é instrutivo. Assim como a ilegalidade criou o crime organizado e produtos perigosos, a proibição de transações de órgãos fomenta um sistema ineficiente e arriscado. Para Roth, a solução não é a ausência de regulação, mas a criação de um mercado legal e transparente, no qual o Estado atue como mediador e pagador, garantindo que a alocação de órgãos continue baseada na necessidade médica e não no poder aquisitivo individual.

O mecanismo de incentivos e a ética da recompensa

Um dos argumentos centrais contra a monetização de órgãos é o temor de que o pagamento desencoraje a doação altruísta. Roth contrapõe que há indícios e experiências análogas a considerar. Em setores como o de plasma sanguíneo, por exemplo, a existência de um mercado pago não extinguiu a oferta gratuita, ajudando a atender a demanda. A ideia de que o pagamento “corrompe” a moralidade do ato é, segundo ele, um julgamento estético que precisa ser pesado contra o custo humano de milhares de mortes anuais por falência renal.

No desenho defendido por Roth na Persuasion, o governo serviria como comprador único: nos Estados Unidos, programas públicos como o Medicare poderiam pagar a doadores vivos por seus rins, tratando-os como um recurso nacional. Além do pagamento, o modelo incluiria monitoramento de saúde de longo prazo, para que o doador não seja explorado e sua saúde seja preservada. Essa arquitetura busca transformar a doação em uma atividade socialmente desejável e segura, mitigando riscos que hoje afastam potenciais doadores.

Implicações para a equidade e o sistema público

A preocupação com a exploração de populações pobres é o maior obstáculo político para essa mudança. Contudo, Roth argumenta que a proibição atual já é, por si só, uma forma de injustiça social, pois mantém um quadro de escassez que condena pacientes a esperar indefinidamente — e, muitas vezes, a morrer esperando. A implementação de um mercado legal, financiado pelo Estado, permitiria que o acesso aos órgãos fosse equitativo, seguindo listas de espera baseadas em critérios clínicos rigorosos, enquanto o pagamento ocorreria entre doador e Estado, não entre indivíduos.

No Brasil, onde o sistema de transplantes tem forte coordenação pública, o debate sobre incentivos financeiros enfrenta resistências culturais profundas. Ainda assim, a análise de Roth convida a refletir se a rigidez moral de um sistema pode ser o maior entrave para a sobrevivência de pacientes. Uma transição para um modelo de “gratidão nacional” — em que o Estado compensa o doador dentro de regras claras de segurança e equidade — é aventada por defensores de reformas como um possível próximo passo evolutivo para sistemas de saúde sobrecarregados.

Perspectivas e o futuro do design de mercado

O que permanece incerto é se o corpo político americano — ou outros ao redor do mundo — terá disposição para testar propostas desse tipo. Pilotos regulatórios e mudanças graduais em incentivos aos doadores são caminhos possíveis para avaliar impactos concretos na oferta e na segurança dos transplantes. O sucesso ou fracasso desses experimentos ajudará a indicar se a sociedade está pronta para aceitar uma abordagem mais utilitarista na gestão de órgãos vitais.

O desafio para as próximas décadas será equilibrar eficiência econômica com salvaguardas éticas. Roth sugere que o design de mercado deve ser um processo contínuo de monitoramento e ajuste. A questão não é se devemos ou não ter mercados, mas como desenhá-los para minimizar o sofrimento humano — reconhecendo que a inação também é uma escolha ética, com consequências fatais.

Com reportagem de Persuasion

Source · Persuasion