O Instituto Aragonés de Gestión Ambiental (Inaga) autorizou a Amazon Web Services (AWS) a aumentar em 48% o consumo de água de seu centro de dados em El Burgo de Ebro, na Espanha. A decisão, publicada no Boletim Oficial de Aragón, permite que a companhia eleve sua dotação hídrica anual para 917.603 m³, o equivalente a 0,92 hectômetros cúbicos. Segundo a reportagem do Xataka, o órgão ambiental não identificou efeitos significativos sobre o meio ambiente, apesar das crescentes restrições de irrigação na região e das preocupações levantadas por grupos ambientalistas e agricultores.

A medida, que se estende a outros complexos da AWS em Villanueva de Gállego e Huesca, onde a empresa fez pedidos semelhantes, representa uma concessão significativa em um contexto de estresse hídrico. A solicitação da AWS, feita no final de 2024, visa acomodar um aumento nas horas de uso de água para refrigeração, passando de 555 para 900 horas anuais, alegando que os valores originais não refletiam as condições climáticas recentes. A empresa também argumenta que elevou o limiar de temperatura para acionar o sistema de refrigeração com água, de 28,3 para 29,4 ºC, o que, em tese, reduziria o consumo.

Consumo hídrico em xeque

A autorização ambiental para a expansão do consumo de água pela AWS em El Burgo de Ebro ocorre em um cenário de forte pressão sobre os recursos hídricos na Espanha, especialmente na região de Aragón. O aumento de 48% na dotação hídrica anual, que eleva o consumo agregado máximo para 917.603 m³, gerou críticas contundentes de grupos como Ecologistas en Acción e Tu Nube Seca Mi Río. Essas organizações apontam que a decisão ignora os impactos do câmbio climático e a já precária situação de abastecimento para a agricultura local, que tem sofrido restrições severas. A alegação da AWS de que sua demanda atual representa apenas 0,009% do Canal Imperial de Aragón, de onde retira água, não aplacou as preocupações sobre a prioridade legal do uso da água em detrimento do setor agrícola.

Regulação ambiental sob escrutínio

O processo que levou à autorização da AWS para aumentar seu consumo de água levanta questionamentos sobre a eficácia da regulação ambiental em face da expansão acelerada da infraestrutura de centros de dados. A decisão de não exigir uma avaliação de impacto ambiental ordinária para o projeto, optando por uma modificação da autorização ambiental integrada, sugere um caminho regulatório que pode não capturar plenamente os riscos ambientais associados a esses empreendimentos de alta demanda hídrica. A necessidade de a empresa fornecer informações detalhadas sobre consumos, tratamentos de efluentes e planos de vigilância ambiental é um passo, mas a fiscalização e o controle independente sobre os gastos reais de água permanecem como pontos de atenção, especialmente após investigações que indicaram consumo superior ao concedido em outras unidades da AWS.

Implicações para o setor e o ambiente

A decisão em Aragón tem implicações que transcendem a região. Ela pode sinalizar uma tendência de flexibilização regulatória para grandes players tecnológicos em detrimento de setores tradicionais como a agricultura, especialmente em áreas onde a competição por recursos hídricos é intensa. Para os agricultores da cuenca del Gállego, que já enfrentam restrições severas, a prioridade legal concedida aos centros de dados conectados a redes urbanas, ou com acesso facilitado a infraestruturas hídricas, representa um desafio direto à sua subsistência. A situação expõe a tensão entre o desenvolvimento econômico impulsionado pela tecnologia e a sustentabilidade ambiental, forçando um debate sobre como conciliar a crescente demanda por infraestrutura digital com a preservação de recursos vitais como a água.

Perguntas em aberto

Fica em aberto se a AWS conseguirá, de fato, otimizar seu consumo de água com as novas medidas ou se a demanda continuará a crescer em cenários climáticos extremos. A capacidade do órgão ambiental de monitorar e fiscalizar o cumprimento das novas cotas de consumo, e a transparência com que a empresa reportará seus gastos hídricos, serão cruciais para avaliar o real impacto ambiental da expansão. Além disso, a forma como outras regiões e países lidarão com pedidos semelhantes de centros de dados, em um contexto de crescente escassez hídrica global, definirá o futuro da infraestrutura digital em relação à sustentabilidade.

A autorização para a AWS aumentar seu consumo de água na Espanha, em meio a restrições hídricas, acende um alerta sobre a regulação ambiental e a priorização de recursos em um mundo cada vez mais dependente de centros de dados, mas também mais vulnerável às mudanças climáticas. A forma como a Espanha e outros países gerenciarão essa tensão definirá o equilíbrio entre inovação tecnológica e sustentabilidade.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Xataka