O governo brasileiro iniciou formalmente um processo que pode culminar na aplicação de contramedidas comerciais contra os Estados Unidos, acionando a chamada Lei da Reciprocidade Econômica. A resposta do setor empresarial não tardou: a Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham Brasil), uma das mais influentes associações de negócios do país, veio a público pedir moderação e alertar para os riscos de uma escalada.

O movimento expõe uma tensão clássica entre a sinalização política de um governo e o pragmatismo econômico do setor privado. Para a Amcham, que agrega cerca de 3.500 empresas responsáveis por um terço do PIB brasileiro, o caminho da retaliação pode elevar custos para empresas e consumidores, afetar cadeias produtivas e, crucialmente, minar a confiança de investidores. O recado é claro: a previsibilidade vale mais que uma demonstração de força diplomática.

A voz do capital

A posição da Amcham não é isolada, mas reflete um consenso quase absoluto entre seus membros. Uma pesquisa recente conduzida pela entidade revelou que 90,5% das empresas consultadas defendem a intensificação do diálogo diplomático como estratégia para resolver pendências comerciais com os EUA. Apenas 3,2% apontaram a reciprocidade como caminho preferencial. Esses números dão a dimensão do temor de que uma disputa comercial saia do controle.

O alerta mira o efeito cascata. Uma escalada tarifária não apenas encarece produtos, mas também introduz um elemento de incerteza que é tóxico para decisões de investimento de longo prazo. Em um momento em que o Brasil busca atrair capital estrangeiro para projetos de infraestrutura e reindustrialização, a percepção de instabilidade nas relações com seu segundo maior parceiro comercial e principal fonte de investimento direto é um passivo significativo.

Negociação ou confronto?

A Amcham ressalta que a abertura do procedimento não significa, por ora, uma decisão final pela adoção de contramedidas. O rito adotado pelo governo prevê etapas de consultas diplomáticas e audiências públicas, abrindo uma janela para que o setor empresarial possa influenciar o desfecho. A leitura é que o governo pode estar usando o mecanismo como uma tática para forçar uma negociação em termos mais favoráveis.

Contudo, a estratégia é de alto risco. O que começa como uma manobra tática pode rapidamente se transformar em uma disputa real, com consequências difíceis de reverter. A mensagem do empresariado, articulada pela Amcham, é que o diálogo de alto nível deve ser o caminho prioritário para reduzir sobretaxas e evitar novas restrições, preservando um ambiente de negócios que a entidade define como equilibrado e previsível.

A forma como o governo brasileiro conduzirá este processo nos próximos meses será um termômetro importante. A decisão de avançar ou recuar indicará se a prioridade recai sobre a estabilidade econômica, defendida pelo setor produtivo, ou sobre uma agenda política de confronto cujos custos para o ambiente de negócios ainda são difíceis de calcular.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney