A AMD decidiu que a era de correr atrás do prejuízo acabou. Com o lançamento da Helios, sua primeira plataforma de computação para inteligência artificial em escala de rack, a companhia está desafiando a Nvidia não no futuro, mas no presente. O sistema de 72 GPUs, segundo reportagem do The Register, foi projetado para competir diretamente não apenas com a atual geração Blackwell da Nvidia, mas também com a futura plataforma Vera Rubin.
A estratégia da AMD é ambiciosa. A empresa alega que, no papel, a plataforma Helios é superior em quase todas as métricas. O movimento representa uma mudança tática fundamental: em vez de lançar um produto equivalente um ano depois da líder de mercado, a AMD está sincronizando seu ciclo de inovação para um confronto direto, apostando em especificações, arquitetura aberta e uma nova narrativa sobre performance.
No papel, uma máquina superior
A plataforma Helios é uma demonstração de força em engenharia. Construída no formato OCP Open Rack Wide, ela é fisicamente maior que a solução NVL72 da Nvidia, e a AMD utiliza o espaço extra para entregar mais poder de fogo. O coração do sistema são 72 aceleradores Instinct MI455X, a quinta geração da arquitetura de computação CDNA da AMD. Cada um desses GPUs é um sanduíche de silício complexo, com 24 chiplets fabricados em processos de 2 e 3 nanômetros da TSMC, conectados por tecnologias de empacotamento 2.5D e 3D.
Essa nova geração de GPUs foi otimizada de forma agressiva para cargas de trabalho de IA, priorizando formatos de dados de baixa precisão como MXFP4 e MXFP8, e abrindo mão completamente da capacidade de computação de dupla precisão (FP64), que será atendida por um produto separado para o mercado de HPC (High-Performance Computing). Outro ponto de diferenciação crucial está na interconexão. Enquanto a Nvidia aposta em seu padrão proprietário NVLink, a AMD utiliza o Ultra Accelerator Link sobre Ethernet (UALoE), permitindo que os fabricantes de sistemas usem switches de silício comercial, como os da Broadcom. A leitura aqui é que essa abertura pode ser um atrativo poderoso para hyperscalers que buscam evitar o aprisionamento tecnológico (vendor lock-in).
A honestidade como estratégia
Talvez o aspecto mais interessante da investida da AMD não esteja no hardware, mas na comunicação. A companhia está sendo notavelmente transparente sobre a diferença entre a performance teórica (pico de FLOPS) e a performance alcançável no mundo real. A indústria sabe que os números de marketing são um teto virtualmente inatingível, impactado por térmicas, consumo de energia e otimização de software. A AMD admite que, em testes reais, o MI455X atinge cerca de 20 petaFLOPS em FP4 — metade do pico teórico de 40 petaFLOPS.
Essa franqueza, que poderia ser vista como fraqueza, funciona como uma estratégia de credibilidade. Anush Elangovan, vice-presidente de software de IA da AMD, afirmou que, mesmo com essa performance “real”, o acelerador “ainda é o melhor da indústria hoje”. A aposta parece estar funcionando. A AMD já garantiu como clientes a Meta, Microsoft e Oracle. Mais significativamente, a OpenAI e a Anthropic, duas das mais importantes desenvolvedoras de modelos de IA, se comprometeram a implantar os novos chips em larga escala. Para os maiores compradores de GPUs do mundo, a performance real e o custo total de propriedade importam mais do que os números de uma planilha.
A batalha pelo data center de IA está longe de terminar, mas a AMD demonstrou com a Helios que não está mais contente em ser uma alternativa secundária. A empresa está atacando o domínio da Nvidia com uma combinação de hardware competitivo, uma arquitetura mais aberta e uma narrativa de marketing que ressoa com a maturidade técnica de seus maiores clientes. A questão agora não é apenas se a AMD pode vencer a Nvidia em benchmarks, mas se sua estratégia multifacetada pode erodir o profundo fosso de software e ecossistema que a Nvidia construiu ao longo de uma década.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · The Register





