Antes de dirigir atores em novelas que pararam o país, Amora Mautner dirigia os móveis de casa. Filha do tropicalismo, crescida no Leblon em meio a Gilberto Gil e Caetano Veloso, a futura diretora artística da Globo já ensaiava seu ofício em cenários domésticos e na leitura compulsiva de quadrinhos — que ela hoje define como “storyboard com emoção”. Essa bagagem, esse acúmulo de referências, forma o centro de sua tese sobre o futuro do trabalho criativo.

Em um mundo onde a inteligência artificial avança sobre tarefas de execução, Mautner aposta que o diferencial humano migrará para a abstração, a curadoria e a originalidade. “O repertório, junto com a tua unicidade, é algo seu,” afirmou a diretora em entrevista ao podcast The Business of Life, do Brazil Journal. A visão é clara: se a técnica pode ser emulada por algoritmos, a combinação única de vivências, gostos e visões de mundo se torna o ativo mais valioso. É um argumento que ecoa no Vale do Silício, mas que ganha contornos particulares na voz de quem moldou o imaginário popular brasileiro.

O antídoto do repertório

Para Mautner, o trabalho audiovisual é essencialmente prático e coletivo, mas ancorado em uma hierarquia clara: o texto. Sua trajetória, de estagiária na Globo a diretora-geral de fenômenos como “Avenida Brasil”, foi forjada na capacidade de traduzir a palavra do autor em imagem, potencializada pela química com o elenco. Nomes como Adriana Esteves e Isabel Teixeira são citados não como meros instrumentos, mas como parceiros na busca por uma verdade cênica.

Nesse ecossistema, a IA surge menos como uma ameaça e mais como um filtro. Ferramentas podem acelerar processos, mas não substituem o olhar que conecta referências, que entende a nuance de um diálogo ou que constrói a tensão de uma cena. O valor não está mais em saber operar a câmera, mas em decidir para onde apontá-la — uma decisão informada por uma vida inteira de observação, leitura e escuta.

A filosofia da falta

O que torna a visão de Mautner particularmente interessante é sua recusa a uma lógica de abundância infinita, muitas vezes associada à tecnologia. Ela revela uma filosofia pessoal de “gostar do que não tem”. Quando um recurso falha, quando a chuva esperada não vem, a frustração pode ser o ponto de partida para a criação. A limitação força a engenhosidade. É uma lição contraintuitiva na era dos LLMs treinados com a totalidade da internet.

Essa aceitação da imperfeição se reflete em sua abordagem narrativa. Para ela, não há vilão puro ou mocinho puro; tudo é mais complexo e misturado. “Um vilão pode tomar um café da manhã triste,” exemplifica, ressaltando a capacidade da teledramaturgia de entregar uma complexidade que a velocidade das redes sociais muitas vezes aplaina. A televisão, em seu formato longo, permite explorar as ambiguidades que a IA, em sua fase atual, ainda luta para compreender.

Talvez o teste definitivo para a criatividade artificial não seja gerar uma imagem perfeita, mas capturar a melancolia de um vilão ao amanhecer. Para Mautner, é nessa complexidade, nesse abraçar da falta, que reside a trincheira final do humano. É o repertório da alma, algo que, por enquanto, não cabe em nenhum banco de dados.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Brasil Journal Tech