A artista australiana Angelica Mesiti, radicada em Paris, ocupa atualmente o Museum Tinguely em Basileia, na Suíça, com a exposição intitulada “Reverb”. A mostra, que permanece em cartaz até 30 de agosto de 2026, tem como peça central o filme The Rites of When (2024), uma obra que transita entre a ficção científica e a aventura especulativa. Segundo reportagem do ARTnews, a produção investiga a desconexão do mundo contemporâneo e propõe rituais seculares como um caminho para a reconexão humana.

O trabalho de Mesiti, que representou a Austrália na Bienal de Veneza de 2019, é marcado por uma investigação persistente sobre formas não verbais de comunicação. Em The Rites of When, a artista utiliza coreografias e ritmos para questionar se a sociedade pode aprender a se “sintonizar” novamente com os ciclos naturais. A obra foi concebida a partir de uma performance coletiva que envolveu pessoas de diversas origens em um ritual urbano, capturando a busca por um sentido compartilhado diante da instabilidade climática.

A busca pela linguagem não verbal

Ao longo de sua trajetória, Mesiti tem explorado como seres vivos e humanos se comunicam sem o uso de palavras audíveis. Sua prática artística abrange desde o som emitido por árvores que interagem através de fungos subterrâneos até a comunicação invisível entre flores e abelhas. Em obras anteriores, como The Colour of Saying (2015) e Relay League (2017), a artista já havia demonstrado seu interesse em traduzir conceitos complexos — como mensagens em código Morse ou movimentos de balé — para linguagens gestuais e musicais.

Essa abordagem documental evoluiu nos últimos anos para uma narrativa mais experimental e ficcional. A transição de Mesiti para um estilo que incorpora coreografia e musicalidade reflete sua formação em balé clássico e seu fascínio por musicais cinematográficos das décadas de 1940 e 1950. A artista busca, por meio desses elementos performáticos, criar uma linguagem própria que consiga expressar as tensões da atualidade, superando a mera documentação da realidade para construir experiências sensoriais.

Mecanismos de conexão e a crise climática

O filme central da exposição em Basileia articula sequências coreografadas com imagens aéreas de paisagens transformadas pela atividade humana, como monoculturas florestais que limitam a biodiversidade. Mesiti utiliza o contraste entre a beleza da dança e a crueza dos desastres ambientais, como incêndios em campos de trigo, para ilustrar a urgência do momento atual. O fogo, que ocorreu de forma espontânea durante as filmagens, tornou-se uma metáfora poderosa para os eventos climáticos extremos que definem o cenário global contemporâneo.

A estrutura do filme, exibida em sete canais que remetem às estrelas das Plêiades, estabelece conexões com calendários agrícolas ancestrais, como o disco celeste de Nebra. Esse mecanismo de montagem sugere uma temporalidade não linear, inspirada pelo conceito indígena australiano de “everywhen”. Ao integrar rituais performáticos a essa estrutura, a artista propõe que a reinvenção de tradições pode servir como uma ferramenta de resiliência e adaptação frente aos desafios ecológicos que enfrentamos.

Implicações para o ecossistema cultural

A obra de Mesiti levanta questões pertinentes sobre o papel da arte na era da crise climática e da saturação tecnológica. Ao questionar a confiabilidade das imagens em um mundo dominado pela IA, a artista desafia o público a repensar a própria natureza da realidade. Para o setor de artes visuais, a abordagem multi-stakeholder da artista — que envolve comunidades locais e referências históricas — demonstra como a prática curatorial pode ser um espaço de mediação entre o passado ancestral e o futuro incerto.

O trabalho também ressoa com a necessidade de espaços de reflexão que não sejam puramente informativos, mas que provoquem uma resposta catártica e coletiva. Ao convidar o espectador a observar a “natureza não natural” e a coreografia humana, Mesiti não oferece soluções definitivas, mas abre um campo de investigação sobre como a arte pode catalisar novas formas de engajamento social. A exposição em Basileia destaca a relevância da produção artística como um espelho das tensões globais.

Perspectivas e o futuro da imagem

O que permanece em aberto, segundo a própria artista, é como a arte deve se posicionar diante da profusão de imagens geradas por novas tecnologias que obscurecem a distinção entre fato e ficção. A linearidade, que Mesiti descreve como um conceito pré-internet, está sendo substituída por múltiplas realidades que nos atingem simultaneamente. O desafio para a próxima fase de sua carreira envolve construir novos caminhos para processar essa complexidade visual.

A artista sugere que, em vez de apenas documentar, os criadores precisam buscar ou construir “em outro lugar”, repensando o uso das imagens em um contexto de constante mutação. A exposição em Basileia serve, portanto, como um ponto de interrogação sobre o que ainda é possível sentir e compartilhar quando os sistemas tradicionais de comunicação parecem falhar. O futuro da prática de Mesiti parece apontar para uma exploração ainda mais profunda das intersecções entre tecnologia, ritual e a fragilidade do meio ambiente.

A exposição em Basileia convida o visitante a considerar se a sintonização com o mundo ao nosso redor ainda é uma possibilidade viável ou se estamos irremediavelmente fora de compasso. A obra de Angelica Mesiti não encerra o debate, mas oferece uma lente através da qual podemos observar nossa própria desorientação, talvez encontrando, no ritmo e na coreografia, uma forma de caminhar juntos em direção a algo novo.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · ARTnews