A Agência Nacional de Mineração (ANM) segue mantendo centenas de Permissões de Lavra Garimpeira (PLGs) na bacia do rio Tapajós, no Pará, a despeito de evidências robustas de que esses títulos são utilizados para a lavagem de ouro ilegal. Uma investigação exclusiva da InfoAmazonia identificou que, entre 2022 e 2026, quase metade das 540 PLGs que declararam vendas de ouro na região não apresentaram qualquer indício de atividade extrativa consistente com os volumes reportados. O cenário sugere uma prática estruturada onde o documento oficial serve apenas como um carimbo de legalidade para minérios extraídos em áreas proibidas, como terras indígenas e unidades de conservação.
O impacto dessa omissão regulatória é sentido diretamente pelas comunidades Munduruku. Testes realizados pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) confirmam níveis alarmantes de mercúrio no organismo de crianças e adultos da região, superando em muito os limites de segurança estabelecidos pelas autoridades de saúde. A contaminação, que decorre do uso intensivo de mercúrio na separação do ouro, cria um ciclo de vulnerabilidade que compromete o desenvolvimento cognitivo e a saúde física de gerações inteiras, enquanto o sistema de regulação brasileiro permanece inerte diante das denúncias de órgãos de controle e da Polícia Federal.
O esvaziamento das normas de controle
As PLGs foram concebidas em 1989 como uma autorização simplificada para atividades de pequeno porte e baixo impacto ambiental. Contudo, o que se observa hoje no Tapajós é uma distorção completa desse modelo. O que deveria ser um garimpo artesanal transformou-se em uma operação industrial de larga escala, utilizando balsas e maquinário pesado. A fragmentação de grandes áreas em múltiplos títulos de até 50 hectares permite que essas operações contornem exigências ambientais mais rigorosas, operando sob uma fachada de legalidade que ignora a realidade da degradação ambiental.
Órgãos como a Controladoria-Geral da União (CGU) e o Tribunal de Contas da União (TCU) já apontaram falhas estruturais que permitem a legalização de ouro de origem ilícita. Auditorias recentes identificaram a chamada "permissividade regulatória" como o motor que sustenta o sistema. Mesmo com decisões judiciais e operações policiais como a Sisaque, que expuseram esquemas de lavagem de ouro, a ANM continua a interagir com atores do setor cujas atividades são questionadas por falta de evidências de exploração legítima e ausência de licenças ambientais exigidas pelo ICMBio.
Mecanismos de lavagem e concentração de poder
O mecanismo de lavagem opera através da declaração de produção em áreas onde não há sinal de mineração, como desmatamento ou movimentação de terra detectada por satélite. A proximidade entre as PLGs declarantes e áreas de mineração ilegal sugere que o documento é utilizado apenas para introduzir o metal no mercado formal. Segundo dados da plataforma VEIO, que cruza informações de produção mineral com dados de satélite, quase 60% do ouro declarado como legal no Brasil nos últimos quatro anos passou por uma PLG do Tapajós, movimentando cerca de 10 bilhões de reais.
A concentração de títulos nas mãos de poucos indivíduos é outro ponto de atenção. Reportagem aponta que 21 pessoas controlam mais da metade das aplicações de mineração na Área de Proteção Ambiental (APA) do Tapajós. Advogados e cooperativas possuem centenas de permissões, muitas vezes contíguas, operando como uma única grande mina. Essa estratégia não apenas facilita a lavagem, mas também sobrecarrega a capacidade de fiscalização dos órgãos ambientais, que frequentemente alegam falta de recursos para realizar inspeções in loco.
Implicações para a saúde e o meio ambiente
A contaminação por mercúrio na bacia do Tapajós é crônica e persistente. O metal, ao ser liberado nos rios, entra na cadeia alimentar através dos peixes, a principal fonte de proteína das comunidades locais. A Fiocruz tem documentado casos de crianças com sequelas neurológicas graves, cujos níveis de mercúrio no organismo chegam a ser quatro vezes superiores ao limite seguro. A exposição prolongada, que começa ainda no útero, impõe um custo social e humano incalculável, perpetuando um ciclo de desigualdade e dificuldades de aprendizado que marcará a trajetória dessas populações.
Para o ecossistema, o dano é igualmente severo. A alteração do curso dos rios e a destruição de matas ciliares em áreas de preservação permanente transformaram a APA do Tapajós na unidade de conservação mais degradada pela mineração no Brasil. A disputa jurídica entre o Ministério Público Federal e a ANM, sobre a necessidade de autorização prévia do ICMBio para a lavra em áreas protegidas, coloca em evidência a fragilidade da governança ambiental brasileira, onde a interpretação burocrática da lei frequentemente prevalece sobre a proteção do patrimônio público.
O futuro da regulação na Amazônia
O que permanece incerto é se o Estado brasileiro terá a capacidade de reverter a dependência econômica da mineração no Tapajós. A pressão de grupos ligados ao setor para formalizar atividades dentro de unidades de conservação ignora os impactos sociais e ambientais já comprovados. A ANM afirma que atua de boa-fé ao aceitar documentos emitidos por outras esferas e que realiza verificações, mas os resultados práticos dessa fiscalização seguem questionados por órgãos de controle e pela sociedade civil.
O monitoramento contínuo das novas licenças e a eficácia das ordens de suspensão emitidas pelo Ibama serão os próximos indicadores de mudança. Enquanto a distinção entre "legal" e "ilegal" for mantida apenas no papel, a realidade nas aldeias Munduruku seguirá marcada pelo medo e pela degradação. A questão central não é apenas o cumprimento da lei, mas a própria viabilidade da sobrevivência dessas comunidades frente a um modelo de exploração que, sob o manto da legalidade, continua a destruir o futuro da região.
Com reportagem de Grist
Source · Grist





