Uma crítica contundente publicada pelo site de arte Hyperallergic acusa a Anthropic, uma das mais proeminentes startups de inteligência artificial, de uma prática análoga à queima de livros. Segundo o autor Ed Simon, a empresa teria digitalizado e, em seguida, destruído fisicamente livros fora de catálogo para alimentar seus modelos de linguagem.
O ato é enquadrado não como um procedimento técnico, mas como um "saque artístico" que esvazia a humanidade em nome do avanço tecnológico. A denúncia, embora vinda de uma coluna de opinião, toca num ponto nevrálgico: a colisão entre a fome de dados da IA e a preservação do patrimônio cultural.
A Biblioteca como Matéria-Prima
A lógica por trás da suposta ação da Anthropic é brutalmente utilitária. Para um modelo de linguagem, o livro não é um artefato histórico, um objeto com pátina e alma, mas um mero contêiner de texto — um dataset a ser ingerido. Uma vez que os dados são extraídos, o invólucro físico torna-se obsoleto, um resíduo a ser descartado.
Essa visão transforma a biblioteca em matéria-prima e o conhecimento em um recurso a ser minerado e exaurido. É o oposto direto do princípio da preservação, que vê no objeto físico um valor intrínseco, um testemunho de seu tempo. O que se perde não é apenas o papel, mas o contexto, a raridade e a própria história contida na materialidade do livro.
Inovação ou Barbárie?
A polêmica em torno da Anthropic serve como uma parábola para a ética do Vale do Silício. O mantra "move fast and break things" (mova-se rápido e quebre coisas) soa diferente quando as "coisas" em questão são o legado cultural. A busca incessante por escala e eficiência pode, inadvertidamente, atropelar valores que não são facilmente quantificáveis.
A comparação com a queima de livros, embora forte, captura a essência da ansiedade cultural gerada pela IA. Há uma ironia trágica na ideia de destruir as fontes do conhecimento humano para construir uma inteligência artificial que, em tese, deveria emulá-lo. O debate que emerge é sobre onde traçar a linha entre o progresso tecnológico e a barbárie digital.
No fim, a questão transcende a Anthropic. Ela nos força a perguntar qual o valor que atribuímos ao original em uma era de cópias infinitas, e o que estamos dispostos a sacrificar no altar da inovação.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Hyperallergic




