A Arábia Saudita informou à Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) que sua produção de petróleo bruto recuou para 6,238 milhões de barris por dia no último mês, o nível mais baixo registrado desde 1990. A queda drástica, de 1,9 milhão de barris diários, reflete o impacto direto da retomada das hostilidades entre Estados Unidos e Irã, que afetam as rotas de exportação no Golfo Pérsico.

O movimento, que já empurrou a cotação do barril tipo Brent para além dos US$ 100, sinaliza mais do que um choque de oferta. A leitura aqui é que a instabilidade geopolítica está impondo uma restrição física à capacidade do maior produtor da OPEP, ao mesmo tempo em que o cartel enfrenta uma crise de coesão interna que mina sua capacidade de estabilizar o mercado.

Geopolítica acima da produção

Os números comunicados por Riad revelam uma operação sob estresse. Segundo o relatório da OPEP obtido pela Bloomberg, a produção efetiva atingiu um piso histórico, inferior ao registrado em abril durante a fase anterior do conflito. Para mitigar o impacto, os sauditas informaram que a “oferta de petróleo bruto para o mercado” foi superior, em 7,122 milhões de barris diários, sugerindo o uso de estoques para cumprir parte dos contratos. É uma manobra de curto prazo, não uma solução sustentável.

A discrepância entre os dados de Riad e a média de “fontes secundárias” da própria OPEP — que aponta uma produção maior, de 7,276 milhões de barris — indica um grau de incerteza. Contudo, a tendência de queda é inequívoca e está alinhada a dados de rastreamento de navios-tanque, que mostram um colapso nas exportações. O fato é que os ataques a petroleiros no Golfo se tornaram um fator de produção, ou melhor, de não produção.

A OPEP em xeque

Enquanto a Arábia Saudita lida com as consequências de um conflito em seu quintal, a OPEP enfrenta seus próprios demônios. A organização, que por décadas funcionou como o banco central do petróleo, parece perder a capacidade de ação coordenada. A recente saída dos Emirados Árabes Unidos, frustrados com os limites de produção, foi um golpe significativo na unidade do cartel.

O cenário se agrava com outros focos de tensão. A Venezuela, membro fundador, avalia abandonar o grupo após firmar um acordo que dá aos EUA controle sobre parte de suas reservas. Simultaneamente, o Iraque pressiona por uma cota de produção maior, ameaçando seguir o caminho dos EAU caso suas demandas não sejam atendidas. O que se desenha é um cartel fragmentado, onde interesses nacionais se sobrepõem à estratégia coletiva.

Para o mercado global de energia, o recado é claro. A queda na produção saudita não é um evento isolado, mas o sintoma mais agudo de uma ordem geopolítica em transformação. Com a OPEP enfraquecida e o Oriente Médio em ebulição, a volatilidade nos preços de combustíveis, que já pressiona a inflação global, pode ter se tornado o novo normal.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney