O rugido da multidão, a tensão a cada jogada, a decisão em milissegundos sob o olhar de milhões. Essa é a realidade de dezenas de árbitros da NFL durante a temporada. Mas, para muitos deles, o apito final no domingo não significa o fim do trabalho. Na segunda-feira seguinte, eles trocam o campo de futebol americano por salas de audiência, laboratórios de engenharia ou púlpitos universitários. Clete Blakeman, um árbitro da liga, é também advogado de lesões pessoais em Nebraska. Brad Rogers, outro juiz de campo, leciona na faculdade de negócios da Texas Tech University. Shawn Hochuli, especialista em finanças, concilia a profissão com a arbitragem. Essas combinações de carreiras, que viralizaram nas redes sociais, parecem destoar da narrativa comum de jovens buscando "side hustles" para complementar rendas modestas. No entanto, para os árbitros da NFL, a motivação transcende a necessidade financeira.
Paixão que transcende o salário
Os números da NFL sugerem que o dinheiro não é o principal motor. Em 2025, a remuneração média de um árbitro da liga ultrapassou os US$ 205.000, com um aumento de 10% nos pagamentos por jogo em 2026, segundo a Sports Illustrated. Esses valores já são substanciais, indicando que as carreiras paralelas não são uma questão de sobrevivência, mas sim de vocação e realização pessoal. Muitos desses profissionais construíram suas carreiras em outras áreas antes de ingressar na NFL, e a paixão pela arbitragem os leva a manter ambas as atividades. Shawn Smith, que atua na NFL desde 2015, também dedicou três décadas à auditoria. Ele encontra paralelos surpreendentes entre suas duas profissões: "A gente tem que ser objetivo, tem que ser independente, tem que ser disciplinado no nosso ofício", disse Smith à WXYZ, afiliada de Detroit. Essa dedicação se estende para além do dia do jogo, com mais de 30 horas semanais dedicadas ao estudo de vídeos e regras, além de reuniões com a equipe de arbitragem e análise de avaliações. A arbitragem, por si só, já exige um comprometimento de tempo comparável a um segundo emprego em tempo integral.
A arte de ser multifacetado
Adrian Hill, com 16 anos de experiência na NFL, exemplifica essa dualidade. Ele também é engenheiro de software principal no Goddard Space Flight Center da NASA. Hill descreve como as duas carreiras exigem abordagens distintas para a tomada de decisão. "Na NFL, você toma decisões em frações de segundo em campo, tudo passa num piscar de olhos", explicou Hill à CBS Baltimore em 2021. "No lado das espaçonaves, é muito diferente. Quando tomamos decisões, é muito medido, pesamos as decisões." Contudo, a pressão da arbitragem é, para ele, incomparável. "Sinto mais pressão no campo da NFL", admitiu. "Quando as luzes se acendem, apitamos, e a ação está ao vivo. Se você tivesse um monitor de frequência cardíaca, minha frequência estaria no máximo. Sei que as pessoas dizem que é só um jogo, mas 20 milhões de pessoas estão assistindo, você toma a decisão." Alcançar esse nível de excelência em ambas as áreas exige anos de dedicação. A NFL exige um mínimo de 10 anos de experiência em arbitragem de futebol, com pelo menos cinco em nível universitário ou profissional. A condição física impecável e a afiliação a associações de arbitragem credenciadas também são requisitos. O processo de inscrição, embora pareça simples, é rigoroso, envolvendo o envio do cronograma de arbitragem universitária dos últimos três anos.
Reflexos em um mundo de vocações múltiplas
A trajetória desses árbitros desafia a noção de que é preciso escolher uma única carreira. "Se alguém dissesse a uma criança que ela poderia ser um jogador de futebol profissional e um médico, você pensaria que isso nunca aconteceria", reflete Hill. "Se você tem essa garra e determinação, você consegue. Não os escute. Você pode sair e fazer os dois." Essa mentalidade ressoa em um cenário onde a ideia de múltiplas carreiras ganha força. Atletas olímpicos, por exemplo, frequentemente equilibram treinos intensos com trabalhos para se sustentar. Keely Cashman, esquiadora olímpica, trabalha como barista em sua cidade natal, enquanto Cory Thiesse e Korey Dropkin, medalhistas de curling, conciliam o esporte com o trabalho de técnico de laboratório e agente imobiliário, respectivamente. A experiência de Gen Z, que frequentemente utiliza "side hustles" para navegar um mercado de trabalho desafiador e lidar com o subemprego, encontra um eco inesperado nas vidas desses árbitros. A pesquisa da EY, indicando que 39% da Geração Z possui um emprego e um "side hustle", sublinha uma tendência crescente de buscar realização e segurança em múltiplas frentes.
O futuro das carreiras híbridas
A vida dupla dos árbitros da NFL levanta questões intrigantes sobre o futuro do trabalho e a natureza da vocação. Será que essa é a nova normalidade, onde a paixão e a necessidade se entrelaçam para criar trajetórias profissionais mais ricas e complexas? A exigência de excelência em âmbitos tão distintos — a decisão impulsiva em campo e a análise metódica no escritório — sugere uma capacidade humana de adaptação e maestria que vai além do convencional. O que mais podemos aprender com esses profissionais que se recusam a ser definidos por uma única identidade profissional? Eles nos mostram que é possível, e talvez até desejável, ser mais do que uma coisa ao mesmo tempo, desafiando as expectativas tradicionais de uma carreira linear e monótona. A busca por múltiplas formas de realização, seja no esporte, na ciência ou nas artes, pode ser o caminho para uma vida profissional mais plena e significativa.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune





