A economia argentina apresentou um crescimento de 2,0% no segundo trimestre em relação ao mesmo período do ano anterior, superando a expectativa de 1,6% do mercado, segundo dados do órgão de estatísticas Indec, reportados pela Reuters. O resultado, à primeira vista positivo, mascara uma realidade complexa e revela as duas faces do plano de ajuste fiscal implementado pelo presidente Javier Milei.

Enquanto o avanço anual foi celebrado, a análise trimestral mostra uma contração de 0,6% em relação aos primeiros três meses do ano — a primeira queda sob a nova gestão. A tese que emerge dos números é a de uma economia dual: um setor exportador que prospera com a nova política cambial e um mercado interno que sente o peso da austeridade.

O motor das commodities

O impulso para o crescimento anual veio de setores primários e de exportação. A pesca liderou com uma alta expressiva de 45%, seguida por mineração (+16%) e o complexo de agricultura e pecuária (+7%). As exportações de bens e serviços como um todo subiram 14% na comparação anual, beneficiadas por um câmbio mais competitivo e pela desregulamentação promovida pelo governo.

Este desempenho reflete uma aposta clara no potencial da Argentina como fornecedora global de commodities. A leitura é que o governo Milei está priorizando a geração de divisas para reequilibrar as contas externas, mesmo que isso signifique um crescimento concentrado em poucos setores, menos intensivos em mão de obra e com baixo encadeamento produtivo para o resto da economia.

O custo do ajuste

Do outro lado da balança, a indústria manufatureira registrou uma contração de 2% em relação ao ano anterior, um dos piores desempenhos setoriais. Este número, somado à queda trimestral do PIB, é o sintoma mais claro do impacto da "terapia de choque": a forte contração fiscal e monetária para combater a hiperinflação deprime a demanda doméstica, o consumo e o investimento produtivo voltado para o mercado interno.

As importações, por sua vez, caíram 9%, um sinal tanto da recessão da atividade industrial, que depende de insumos importados, quanto da contenção do consumo. O dilema para o governo argentino é claro: o ajuste fiscal é necessário para estabilizar a macroeconomia, mas seu custo imediato é uma recessão no setor que mais emprega e que serve de termômetro para a economia real das cidades.

Os dados do segundo trimestre, portanto, não oferecem uma resposta definitiva, mas sim a fotografia de uma transição dolorosa. A sustentabilidade do modelo de Milei dependerá de sua capacidade de fazer com que os ganhos do setor exportador se traduzam, no médio prazo, em investimentos e recuperação para a economia como um todo, antes que o custo social do ajuste se torne politicamente insustentável.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney