Murillo de Aragão, CEO da consultoria Arko Advice, projeta um cenário sombrio para o Brasil sob um eventual quarto mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Em sua análise, a chamada "Nova República" teria fracassado e o próximo governo herdará um quadro de "deterioração institucional" e "desequilíbrio das contas públicas", que dificultará a construção de uma base política sólida para a agenda econômica. Aragão, que falava a empresários em São Paulo, defendeu uma mudança de postura diante da polarização política e da necessidade de um pragmatismo econômico mais acentuado.

A Nova República em Frangalhos

A tese central de Aragão é que o modelo institucional e político brasileiro, inaugurado após a ditadura militar, esgotou suas potencialidades e se encontra em um estado avançado de degradação. Ele descreve um quadro de "deterioração institucional" sem precedentes em sua longa carreira de acompanhamento político. Essa fragilidade, segundo ele, manifesta-se na complexa relação entre os Poderes, na judicialização da política e na politização do Judiciário, criando um ambiente de imprevisibilidade e insegurança jurídica. Para o CEO da Arko, essa instabilidade afeta diretamente a confiança dos investidores, que podem optar por realocar operações e domicílios fiscais para fora do Brasil, como já temem alguns de seus clientes. A "teoria do custo político", como ele a denomina, sugere que o sucesso de qualquer agenda governamental depende da combinação de credibilidade, popularidade e capacidade de articulação, elementos que parecem escassos no atual contexto.

O Desafio Fiscal e a Credibilidade

O principal obstáculo para o governo Lula 4, na visão de Aragão, será a reconstrução da credibilidade fiscal. A percepção de risco associada às contas públicas brasileiras pode manter os juros em patamares elevados e encarecer o crédito, inibindo investimentos produtivos. Aragão, contudo, pondera que não são necessários cortes de despesas drásticos e imediatos para convencer os mercados. O fundamental, segundo ele, é que o governo demonstre uma "trajetória consistente de ajuste fiscal", sinalizando um compromisso com a responsabilidade com as contas públicas. A tendência é o que move o investidor, e a demonstração de intenção em realizar os cortes, mesmo que não imediatamente, pode ser suficiente para alterar as expectativas de mercado. A perda de confiança, no entanto, transcende o âmbito financeiro, podendo levar à fuga de capitais e à transferência de atividades econômicas para outros países, um risco que Aragão considera "sério para o Brasil".

Congresso Fragmentado e a Política de Alianças

Além do ajuste fiscal, a governabilidade em um cenário de "Congresso fragmentado" apresenta outro desafio monumental. Aragão aponta que, embora haja uma presença significativa de forças de direita, o "centrão" detém poder de barganha e uma agenda própria, o que impede o governo de contar com apoio automático. A construção de alianças demandará negociações constantes e poderá impor custos políticos elevados. A "teoria do custo político" de Aragão ressalta que o sucesso de uma agenda depende da convergência entre credibilidade, popularidade e propostas viáveis politicamente. Em um ambiente polarizado e com interesses divergentes, reunir esses elementos torna-se uma tarefa árdua, comprometendo a aprovação de reformas estruturais.

A Necessidade de um Empresariado Ativo

Aragão também direciona críticas ao setor empresarial, que, em sua avaliação, tem se concentrado excessivamente na defesa de interesses específicos em detrimento da discussão de problemas estruturais do país. Ele defende uma participação mais incisiva e menos partidarizada das lideranças empresariais na interlocução com os Poderes, focando em políticas de Estado que transcendam a alternância de governos. Acredita que, sem essa participação ativa da sociedade civil e do setor privado, a solução dos problemas brasileiros ficará "terceirizada para o mundo político-institucional". Apesar do quadro crítico, Aragão não se declara pessimista com o Brasil, destacando o potencial econômico e os recursos do país. O crescimento sustentado, porém, dependerá da recuperação da credibilidade fiscal e da construção de apoio político, somados a uma atuação mais efetiva dos agentes econômicos na busca por mudanças estruturais.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times