Em 1956, no seu 24º aniversário, Sylvia Plath ganhou de seu marido, o também poeta Ted Hughes, um baralho de Tarô de Marselha. Décadas após sua morte, essas mesmas cartas, leiloadas pela Sotheby's, ressurgiram nas redes sociais nas mãos de Courtney Love, vocalista da banda Hole. O episódio, quase anedótico, reabre uma porta para uma camada menos explorada da obra de Plath: o tarô não como ferramenta de adivinhação, mas como um sistema simbólico para mapear sua psique.
Para a poeta, que também teria usado o baralho Rider-Waite, as cartas parecem ter funcionado como um léxico visual. Eram arquétipos que davam forma a sentimentos e conflitos que a linguagem cotidiana talvez não alcançasse. A leitura de sua poesia sob essa ótica revela como os arcanos maiores forneceram uma gramática para sua angústia existencial, suas ambivalências sobre a maternidade e sua resistência às sufocantes expectativas sociais da época.
Um vocabulário para a angústia
A conexão mais direta aparece em seu poema “The Hanging Man”, um espelho do arcano O Enforcado. A carta representa uma figura suspensa, de cabeça para baixo, vendo o mundo por uma nova perspectiva, muitas vezes à custa de um sacrifício ou de uma paralisia. Plath usa essa imagem para descrever a sensação de inadequação a um mundo “pouco simpático”, como descrevem acadêmicos, e sua dificuldade em se encaixar no papel de dona de casa. A suspensão do Enforcado era a sua própria suspensão entre a ambição artística e o destino doméstico.
Outro exemplo poderoso é a carta A Lua, cujos temas de subconsciente, ansiedade e medos profundos ecoam no poema “The Moon and the Yew Tree”. Na astrologia e no tarô, a Lua carrega uma forte influência maternal. No poema, Plath explora a divisão entre a espiritualidade herdada e uma conexão mais sombria e pessoal com o oculto. A Lua, no poema, “assombra e ameaça como um trauma passado”, transformando o arquétipo em um veículo para explorar suas complexas relações familiares e seu próprio terreno psíquico.
Dilemas arquetípicos
Os dilemas de Plath sobre escolha e dualidade também encontram ressonância nos arcanos. A carta Os Amantes, que simboliza a encruzilhada e as consequências de uma decisão, dialoga com o poema “Thalidomide”. Ali, a poeta explora a linha tênue entre amor e ódio, proteção e abandono, refletindo a ambivalência de desejar dois caminhos de vida distintos e mutuamente exclusivos. Essa mesma paralisia é o cerne da famosa metáfora da figueira em sua novela “A Redoma de Vidro”, onde cada figo representa um futuro possível que apodrece enquanto a protagonista hesita.
Já a carta O Diabo, que representa o aprisionamento autoimposto e as paixões que se tornam correntes, está entrelaçada com o poema “Death & Co.”. O arcano mostra duas figuras acorrentadas, mas com a chave para sua liberdade ao alcance das mãos, questionando por que elas permanecem cativas. Plath transpõe essa imagem para sua própria vida, abordando a questão de por que nos atormentamos com as coisas que desejamos e, uma vez alcançadas, nos sentimos presos por elas. Era a dicotomia entre a mulher independente e a mãe, a artista e a esposa.
Para Plath, o tarô parece ter sido menos sobre prever o futuro e mais sobre decifrar o presente. As cartas não ofereciam respostas, mas sim um espelho para suas perguntas mais difíceis. Elas eram a articulação visual de dores, frustrações e críticas a uma sociedade que lhe oferecia papéis limitados, um eco simbólico que, assim como sua obra, permanece potente e universal.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Lit Hub




