A Ascenty, operadora de data centers controlada pela canadense Brookfield e pela americana Digital Realty, anunciou um investimento de US$ 1,2 bilhão para expandir sua infraestrutura voltada à inteligência artificial no Brasil. O plano prevê a construção de quatro novas plantas no interior paulista, com duas unidades já sob contrato fechado, totalizando 150 megawatts de capacidade contratada. Segundo a companhia, os projetos devem ser entregues entre 2026 e o final de 2027.

O aporte reforça a posição do Brasil como um hub estratégico para a infraestrutura de IA na América Latina. De acordo com o CEO da Ascenty, Chris Torto, a estratégia é baseada na demanda por capacidade de processamento de alta densidade, essencial para a inferência de modelos generativos, onde o país se beneficia de uma matriz energética majoritariamente renovável e conectividade robusta.

A mudança no paradigma de densidade

O projeto Sumaré 3, com 90 MW de capacidade, destaca-se por ser o primeiro grande data center no Brasil concebido exclusivamente para as exigências da IA. Diferente da nuvem tradicional, que opera com densidades próximas a 8 kW por rack, as novas unidades de IA podem demandar entre 60 kW e 1 megawatt no mesmo espaço físico. Essa exigência computacional extrema exige a adoção de tecnologias de refrigeração líquida direta nos chips, superando a eficiência dos sistemas de ar-condicionado convencionais.

A transição para o resfriamento líquido reflete uma mudança estrutural no design de data centers. O uso de GPUs de alta performance gera um calor que, se não dissipado com precisão, compromete a operação. A Ascenty optou por um sistema de circuito fechado de água para otimizar o índice de eficiência energética (PUE), mantendo uma meta de 1,45, equilibrando o consumo hídrico com a necessidade de resfriamento intensivo.

O gargalo da transmissão elétrica

A ascensão da IA generativa deslocou o principal desafio do setor: a geração de energia deu lugar à capacidade de transmissão. Para viabilizar o campus de Sumaré, a Ascenty investiu US$ 50 milhões em 32 quilômetros de linhas de transmissão, conectando a subestação da CPFL ao seu complexo. Este movimento ilustra como o custo de entrada para players de infraestrutura digital passou a incluir a própria malha elétrica.

O modelo de negócio adotado pela Ascenty é o single-tenant, onde a estrutura física é dedicada a um único cliente de grande porte. Enquanto a operadora fornece o terreno, a edificação e os sistemas de refrigeração, os clientes são responsáveis pelo investimento em servidores e GPUs, estimado em US$ 5 bilhões adicionais. Essa divisão de capital reflete a especialização necessária para sustentar a infraestrutura de IA em escala.

Implicações para o ecossistema brasileiro

O investimento da Ascenty ocorre em um cenário de disputa global por capital de infraestrutura. Embora o Brasil possua vantagens competitivas naturais, o setor aguarda o desfecho do projeto Redata, que tramita no Senado e prevê incentivos fiscais para a instalação de data centers. Segundo a empresa, embora o projeto não tenha sido o fator determinante para este anúncio, a ausência de uma política pública clara limita o potencial de atração de investimentos maiores.

Para o mercado nacional, a presença de infraestrutura de ponta pode reduzir a latência e os custos para empresas brasileiras que buscam integrar soluções de IA. Contudo, a dependência de grandes players globais de tecnologia para ocupar essas unidades coloca o Brasil em uma posição de dependência estratégica, onde a oferta de energia e infraestrutura física é o principal ativo de barganha diante das Big Techs.

Perspectivas e incertezas

O que permanece em aberto é a capacidade do sistema elétrico brasileiro de suportar a demanda crescente caso outros projetos de magnitude similar sejam anunciados. A necessidade de investimentos constantes em transmissão sugere que a expansão do setor de IA dependerá tanto da inovação tecnológica quanto da eficiência das agências reguladoras no planejamento da rede elétrica.

Acompanhar o ritmo de entrega desses projetos será fundamental para entender se o Brasil conseguirá se consolidar como um destino preferencial para o processamento de dados na região. A evolução das tecnologias de resfriamento e a gestão de recursos naturais continuarão sendo variáveis críticas para a sustentabilidade desses empreendimentos de alto consumo.

Com reportagem de Brazil Valley

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