O silêncio do espaço, a imensidão negra pontilhada por estrelas distantes, a Terra azul e branca suspensa no vácuo. Essa foi a paisagem de Jeremy Hansen em abril, quando se tornou o primeiro canadense a orbitar a Lua a bordo da Artemis II. Meses depois, o astronauta de 50 anos, com uma carreira de 32 anos como piloto de caça e 17 como membro da Agência Espacial Canadense, trocou o cockpit de uma nave por um papel de consultor em um projeto que, embora terrestre, carrega a ambição de outro mundo: um megaprojeto urbanístico em Madri.

Hansen agora empresta seu nome e expertise espacial à Moon World Resorts, uma empresa de Toronto que sonha em replicar a experiência lunar em larga escala. A proposta é audaciosa: uma cidade de 500 acres (cerca de 200 hectares) com uma esfera central de 312 metros de altura, que simula a superfície lunar, um hotel de 4.000 quartos, e o que não poderia faltar em um projeto com essa veia espetaculosa: um monorraíl. Tudo isso cercado por 12.000 moradias de luxo, que, ironicamente, deveriam financiar a própria atração turística que terão como vizinha.

A Ambição Lunar em Solo Madrilenho

A ideia de trazer um pedaço da Lua para perto de Madri, com direito a passeio espacial simulado por US$ 500 e uma colônia visitável, soa como algo saído de um roteiro de ficção científica. A Moon World Resorts se posiciona como uma licenciadora de propriedade intelectual, sem a intenção de construir, mas sim de vender seu conceito para um único cliente — seja uma construtora ou um fundo soberano — com capital para executar a obra. A empresa cita J.K. Rowling e a Universal como um paralelo, mas insiste que seu projeto não é um parque temático, e sim uma experiência imersiva.

Hansen, que agora atua como "estrategista espacial" e membro do conselho consultivo, admite que os detalhes de como a simulação lunar funcionará ainda estão em desenvolvimento. Sua confiança reside na crença de que "as soluções aparecerão ao juntar os especialistas". Essa abordagem, que mistura a expertise de um astronauta com a visão de negócios de uma empresa de licenciamento, é central para o apelo do projeto. No entanto, a notícia, publicada originalmente pelo Xataka, ressalta que, por enquanto, o empreendimento existe apenas em renders, e a busca por terrenos e parceiros em Madri é descrita como "exploratória".

O Espetáculo Contra a Realidade

Comparado a empreendimentos urbanísticos já em andamento em Madri, como Valdecarros — que prevê 51.656 moradias, a maioria protegidas, e uma área dez vezes maior que a proposta pela Moon —, o projeto lunar parece um oásis de luxo e espetáculo. Valdecarros, com um investimento estimado em 7,5 bilhões de euros, já tem a primeira fase aprovada e obras previstas para 2027. A Moon, por sua vez, estima um investimento de 5 bilhões de dólares, mas ainda não possui o terreno nem um sócio de desenvolvimento definido.

A viabilidade de projetos dessa magnitude, especialmente aqueles que dependem de capital privado e da venda antecipada de unidades imobiliárias para financiar a própria atração, é um ponto de interrogação constante. A história recente, com exemplos como o auditorio do Parque Juan Carlos I ou o trem Móstoles-Navalcarnero, serve como um lembrete sombrio de como megaproyetos podem se perder em promessas e renderes quando o dinheiro não se materializa. A promessa de um pedaço da Lua em Madri, por mais sedutora que seja, enfrenta o desafio da realidade econômica e burocrática.

Implicações para o Urbanismo e o Sonho

O envolvimento de uma figura como Jeremy Hansen confere um selo de credibilidade e um apelo midiático inegável ao projeto. No entanto, a linha tênue entre a inovação inspirada pela exploração espacial e a especulação imobiliária de luxo é um tema a ser observado. A dependência de um "governo disposto a ceder o solo e agilizar os permissos", como mencionado por um dos cofundadores, aponta para a necessidade de um ecossistema favorável que nem sempre se alinha com a velocidade e a escala de tais ambições.

A Moon World Resorts busca licenciar até 10 projetos globalmente, cada um para um único cliente. O interesse em cidades como Sevilha, Valência e Barcelona, além de Madri, demonstra uma estratégia de expansão que pode testar os limites da demanda por esse tipo de empreendimento. A questão que paira é se a fascinação pelo espaço e a promessa de um estilo de vida exclusivo serão suficientes para transformar esses renders de luxo em realidade tangível, ou se o projeto se tornará mais um capítulo na longa lista de sonhos urbanísticos que ficaram apenas no papel.

O que resta é a imagem de um astronauta, acostumado a paisagens cósmicas, agora imerso em planos urbanísticos de torres de luxo e lagunas artificiais. A transição do vácuo para a selva de pedra, do concreto lunar para o concreto madrileño, levanta uma questão fundamental: quando a ambição de tocar o céu se encontra com a necessidade de construir um lar, qual dos dois mundos prevalece?

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Xataka