A Astroscale, empresa japonesa com forte presença no Reino Unido, apresentou uma proposta ousada para reforçar a segurança espacial ocidental: frotas de satélites "bodyguard" (guarda-costas). A tecnologia para construir essas naves protetoras já existe, desenvolvida e testada pela própria empresa em missões pioneiras de remoção de detritos e manutenção orbital. A ideia é adaptar as capacidades de manobra e captura desenvolvidas para lidar com o lixo espacial para criar um escudo protetor para satélites essenciais.

A Tecnologia por Trás dos Guarda-Costas Espaciais

A Astroscale demonstrou sua expertise em 2024 com a missão ADRAS-J, que realizou uma inspeção próxima de um estágio de foguete japonês descartado em órbita baixa da Terra (LEO). Anteriormente, a missão ELSA-D (2021-2024) foi a primeira iniciativa comercial a provar tecnologias de captura orbital em LEO. "No serviço em órbita, precisamos atingir níveis muito altos de agilidade para acoplar e chegar a uma distância de zero metros para reabastecer algo ou removê-lo da órbita", explicou Alex Godfrey, chefe de defesa da Astroscale, em um evento em Londres. Ele acrescentou que, para o controle espacial, a proximidade pode ser menor, tornando a tarefa, em alguns aspectos, mais simples.

A Ameaça Crescente em Órbita

A proposta ganha urgência diante de recentes manobras russas consideradas hostis. No ano passado, um satélite russo realizou aproximações não consensuais a um satélite de radar da empresa finlandesa ICEYE, que fornece dados de inteligência para a Ucrânia. Especialistas descreveram o evento como o primeiro encontro do tipo entre dois satélites ativos em órbita baixa (LEO). Este incidente é parte de um padrão mais amplo. Desde 2014, a Rússia utiliza satélites como o Luch-1 e Luch-2 para espionar satélites de comunicação ocidentais. Em resposta a atividades anteriores, autoridades dos EUA já haviam classificado o comportamento russo como "ameaçador" e "consistente com operações de armas em órbita", um sentimento que ecoa nas preocupações atuais.

Proposta de Colaboração Europeia e Custos Acessíveis

Godfrey acredita que um satélite "bodyguard" custaria cerca de 1% do valor de uma constelação de comunicações geoestacionária de grau militar, como a frota Skynet do Reino Unido, avaliada em £8,4 bilhões. "Construir um satélite guarda-costas está absolutamente ao alcance e orçamento de um único país como o Reino Unido", afirmou. Ele comparou a estratégia a um grupo de batalha de porta-aviões, onde o navio principal é escoltado por embarcações menores e de menor custo. A Astroscale, embora líder em tecnologia de encontro e proximidade orbital, reconhece que nenhum player ocidental atualmente iguala as capacidades da Rússia e China. A proposta de Godfrey é a formação de uma frota pan-europeia, onde nações colaborariam para proteger os ativos de cada uma, otimizando recursos e cobrindo diferentes regiões orbitais. "Se a França tem ativos em uma localização semelhante à do Reino Unido e talvez da Alemanha, faz sentido que uma nave proteja duas ou três naves aliadas", sugeriu.

Próximos Passos e o Cenário Atual

Nick Shave, diretor-gerente da Astroscale no Reino Unido, confirmou que a empresa está em "discussões" com clientes na Europa, embora ainda não haja contratos assinados para satélites "bodyguard". O governo do Reino Unido prometeu financiamento para desenvolvimento de controle espacial a partir de 2030, o que exige a preparação da infraestrutura e das capacidades necessárias até lá. Enquanto isso, o satélite russo COSMOS 2612 continua a rondar o satélite ICEYE, mantendo a comunidade espacial ocidental em alerta e evidenciando a urgência da proposta da Astroscale.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Space.com