Bernard Arnault, o arquiteto por trás do império de luxo LVMH, revelou um dos maiores “e se” de sua carreira de investidor: sua holding familiar chegou a deter quase 20% da Netflix, mas vendeu a posição cedo demais. O investimento inicial, de US$ 30 milhões em 1999, fez do Groupe Arnault o maior acionista da então novata que enviava DVDs pelo correio.
Em uma entrevista recente ao podcast Legend, Arnault contou ter liquidado a maior parte de sua participação quatro anos depois, quando a Netflix atingiu um valor de mercado de US$ 500 milhões. Um bom negócio, sem dúvida. Mas hoje, com a gigante do streaming avaliada em US$ 300 bilhões, aquela fatia poderia valer até US$ 60 bilhões. A confissão do bilionário francês joga luz sobre um dilema atemporal do mundo dos investimentos: o custo de oportunidade de realizar um lucro expressivo antes de uma explosão de crescimento.
O dilema do vencedor
“Eu sempre vendo cedo demais”, admitiu Arnault, que também lamentou ter vendido ações da Apple antes da hora. A frase encapsula uma tensão psicológica familiar a qualquer investidor. A decisão de embolsar um retorno sólido — o que Arnault classificou como “um investimento muito bom” — é racional e disciplinada. Contudo, ela entra em conflito com a paciência necessária para capturar os ganhos exponenciais que definem os grandes vencedores da tecnologia.
Do ponto de vista do venture capital, uma saída com o valuation de US$ 500 milhões para uma aposta feita em 1999 seria celebrada como um sucesso retumbante. O “erro” de Arnault só se torna visível em retrospecto. A dificuldade não está em identificar um bom negócio, mas em ter a convicção — e o estômago — para segurá-lo durante a transição de uma empresa promissora para um titã global, atravessando crises e pivôs estratégicos, como a migração da Netflix do correio para o streaming.
Um clube de notáveis
Arnault está em boa companhia. A história da tecnologia é repleta de saídas precoces que, vistas de hoje, parecem erros colossais. Ronald Wayne, o terceiro cofundador da Apple, vendeu sua participação de 10% por US$ 800 apenas doze dias após a criação da empresa. Peter Thiel, um dos primeiros investidores do Facebook, obteve um retorno formidável ao vender a maior parte de sua participação por US$ 400 milhões, mas deixou bilhões na mesa.
Mesmo fundadores, como Kevin Systrom e Mike Krieger do Instagram, optaram pela segurança de uma venda de US$ 1 bilhão para o Facebook em 2012, abdicando do potencial de se tornarem multibilionários. Cada uma dessas decisões foi lógica dentro de seu contexto, motivada por aversão a risco, necessidade de liquidez ou subestimação do mercado potencial. A narrativa do “erro bilionário” é uma construção a posteriori, que ignora a incerteza do momento.
A história de Arnault com a Netflix não é tanto um lamento, mas uma aula sobre a natureza assimétrica dos investimentos em inovação. Para cada aposta que se multiplica centenas de vezes, dezenas se perdem pelo caminho. A mesma disciplina que leva um investidor a realizar um lucro “cedo demais” é, muitas vezes, o que garante o capital para financiar a próxima grande aposta.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune





