Pesquisadores identificaram duas novas espécies de aves capazes de produzir sons que rivalizam com o barulho de um martelo pneumático ou uma motosserra: o bellbird de garganta nua (bare-throated bellbird) e a seriema-de-pernas-vermelhas (red-legged seriema). Ambas as espécies possuem vocalizações que excedem 120 decibéis, colocando-as na mesma categoria sonora do bellbird branco, que em 2019 já havia estabelecido um recorde de ave mais barulhenta. A descoberta, publicada no periódico Evolution, expande o conhecimento sobre os limites da produção sonora no reino animal e levanta questões sobre os mecanismos evolutivos que levam a tais extremos.
O Panteão dos Sons Extremos
O bellbird de garganta nua e a seriema-de-pernas-vermelhas juntam-se ao bellbird branco no seleto grupo de aves com vocalizações que ultrapassam a marca impressionante de 120 decibéis. Essa intensidade sonora é notável, considerando que o grito de uma motosserra ou de um martelo pneumático, fontes comuns de ruído extremo, também se encontra nessa faixa. A dificuldade em declarar um vencedor absoluto entre essas três espécies reside nas variações das técnicas de medição e nas diferenças individuais dentro de cada população. Contudo, o trio representa uma classe à parte, superando significativamente a quarta ave mais barulhenta conhecida, a piha-gritante, cujos chamados atingem cerca de 116 decibéis. A pesquisa não se limitou a identificar os recordistas; ela também coletou medições sem precedentes de amplitude vocal em outras 123 espécies, um avanço crucial para entender o que permite a produção de sinais acústicos tão potentes entre a fauna terrestre.
Mecanismos de Amplitude e Adaptação
A questão fundamental que motivou a pesquisa, segundo João C.T. Menezes, um dos autores do estudo, era compreender as razões pelas quais algumas espécies de aves cantam mais alto que outras. A amplitude vocal, ao contrário de características como frequência ou tempo, tem sido historicamente difícil de medir em ambientes selvagens, especialmente em locais remotos como a floresta amazônica, devido à complexidade em determinar a distância exata entre o gravador e o animal. Para superar esse obstáculo, os pesquisadores utilizaram telêmetros a laser, ferramentas comumente empregadas no golfe para medir distâncias, permitindo corrigir as gravações de amplitude pela distância. Essa abordagem inovadora possibilitou a obtenção das primeiras medições claras de amplitude para dezenas de espécies, desde beija-flores, no extremo inferior da escala de decibéis, até os três gigantes sonoros mencionados. A equipe se surpreendeu ao constatar que, embora aves com corpos maiores e aberturas de bico mais amplas tendessem a ser mais barulhentas, não havia uma ligação clara entre a extrema loudness e fatores ecológicos como habitat ou comportamento sexual, evidenciando rotas evolutivas paralelas para atingir a intensidade sonora máxima.
Implicações Ecológicas e Limites Naturais
As descobertas sobre as aves mais barulhentas oferecem um vislumbre fascinante das pressões evolutivas e das adaptações que moldam a comunicação animal. Os dois tipos de bellbird, por exemplo, habitam florestas densas e são altamente polígamos, com os machos utilizando seus chamados estrondosos para atrair fêmeas. Em contraste, a seriema-de-pernas-vermelhas vive em habitats abertos, como pastagens, e forma laços monogâmicos de longo prazo. Essa diversidade de estratégias, apesar de resultados sonoros semelhantes, sugere que a evolução pode encontrar múltiplos caminhos para atingir a máxima eficiência na comunicação vocal, dependendo das pressões seletivas específicas de cada nicho ecológico. A pesquisa também aponta para um teto na intensidade sonora produzida por animais terrestres, estimado entre 120 e 125 decibéis, um limite que parece ser compartilhado por animais tão diversos quanto elefantes e morcegos. Essa aparente limitação física sugere que, embora novas espécies com vocalizações extremamente altas possam ser descobertas, é improvável que surjam aves significativamente mais barulhentas do que as já conhecidas.
Perguntas em Aberto e o Futuro da Pesquisa
Apesar dos avanços significativos, a pesquisa sobre a amplitude vocal das aves ainda deixa questões em aberto. A equipe planeja continuar explorando os fatores ecológicos específicos que impulsionam altas amplitudes vocais, buscando entender as nuances que diferenciam as estratégias de comunicação em diferentes espécies e ambientes. Embora a possibilidade de encontrar outras aves no mesmo patamar de barulho não seja descartada, a perspectiva de descobrir sons substancialmente mais altos parece remota, dado o limite observado em animais terrestres. A pesquisa futura provavelmente se concentrará em refinar a compreensão dos limites fisiológicos e ambientais que determinam a intensidade máxima da vocalização, bem como a diversidade de comportamentos e adaptações que levam a esses extremos sonoros no mundo natural. A exploração contínua desse campo promete revelar mais sobre a complexa tapeçaria da comunicação animal.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · 404 Media





