A banca mediana espanhola tem defendido vigorosamente sua capacidade de competir no crescente campo da Inteligência Artificial (IA) com as gigantes financeiras do setor. A tese central reside na acessibilidade da tecnologia, que, segundo executivos de instituições como Kutxabank e Ibercaja, permite a celebração de acordos estratégicos com fornecedores especializados e o acesso a plataformas em condições financeiras favoráveis. Isso significa que investimentos "desproporcionais" não são necessariamente um pré-requisito para adotar soluções de IA.

Eduardo Ruiz de Gordejuela, CEO da Kutxabank, destacou em um simpósio que a IA está ao alcance de qualquer entidade. A estratégia da Kutxabank envolve a captação de conhecimento e talento em três níveis: uma equipe nuclear de tecnólogos e engenheiros de IA, profissionais nas áreas usuárias que demandam soluções de IA, e uma camada generalista que garante a coerência da estratégia. Ele também ressaltou que a IA, utilizada de forma inteligente, pode acentuar a diferenciação no setor, mas alertou para o desafio de compreender como o usuário se apropria da ferramenta e como o banco pode se conectar a esse uso.

Por outro lado, Victor Iglesias, CEO do Ibercaja, reconheceu as limitações de "munição para investir e recursos humanos" das firmas de médio porte. Ele enfatizou a necessidade de "selecionar muito bem as apostas tecnológicas principais". O modelo do Ibercaja foca em se tornar um "Smart Follower" eficaz, incorporando tecnologias já testadas e direcionando os esforços para o cliente e o desenvolvimento do negócio, com a escolha criteriosa de "parceiros idôneos". Iglesias também assegurou que o modelo de IA adotado pela instituição não visa substituir pessoas, valorizando a empatia e a capacidade de aconselhamento dos profissionais, que serão sempre apoiados por tecnologia de vanguarda.

Foco em Alianças e Eficiência

A estratégia da banca mediana para competir em IA não se baseia em replicar os investimentos massivos dos grandes bancos, mas sim em otimizar recursos através de parcerias estratégicas. Ao firmar acordos com provedores especializados, essas instituições conseguem acessar tecnologias avançadas e plataformas de IA sem a necessidade de desenvolver tudo internamente. Isso permite uma alocação mais eficiente de capital e expertise, focando em soluções que tragam retorno tangível e melhorem a experiência do cliente. A ideia é ser ágil e inteligente na adoção, em vez de tentar liderar em todas as frentes tecnológicas.

O conceito de "Smart Follower" ilustra bem essa abordagem. Em vez de serem pioneiros em todas as inovações de IA, os bancos de médio porte buscam identificar e implementar tecnologias que já foram validadas no mercado. Essa postura permite mitigar riscos e garantir que os investimentos em tecnologia estejam alinhados com as necessidades reais do negócio e dos clientes. A seleção criteriosa de projetos e parceiros é, portanto, um pilar fundamental para garantir que a adoção da IA resulte em vantagem competitiva e não em um dreno de recursos.

IA como Ferramenta de Diferenciação e Não Substituição

Um ponto crucial na discussão sobre IA na banca mediana é seu impacto no emprego e na relação com o cliente. Executivos como Iglesias do Ibercaja deixam claro que o objetivo não é substituir a força de trabalho, mas sim potencializá-la. A empatia, o conhecimento e a capacidade de aconselhamento dos profissionais são vistos como insubstituíveis, e a IA surge como uma ferramenta para aprimorar essas qualidades, oferecendo suporte tecnológico de ponta. A ênfase recai sobre a banca ser "de clientes", e não apenas de produtos ou canais.

Para a Kutxabank, a IA pode até mesmo acentuar a diferenciação. A chave está em entender não apenas como introduzir a IA na relação com o cliente, mas também como se conectar e interpretar o próprio uso que o cliente faz da IA. Essa compreensão profunda permite que os bancos ofereçam experiências mais personalizadas e eficazes, que vão além da simples oferta de produtos, apelando tanto ao lado racional quanto ao emocional do cliente. A IA, nesse contexto, torna-se um meio para fortalecer os laços e a confiança.

O Papel da Identidade e Qualidade

José Luís Acea, CEO do Banca March, trouxe uma perspectiva adicional ao discutir a diferenciação no setor. Ele reivindicou o valor de ser uma empresa familiar, argumentando que essa característica confere uma vantagem competitiva clara, protegendo a instituição das pressões de curto prazo do mercado e permitindo uma visão de longo prazo. Para Acea, a qualidade e a identidade própria são mais importantes do que a mera disputa por preço. Ele sugere que bancos que não possuem uma identidade clara e não entregam valor percebido por seus clientes podem enfrentar problemas mais profundos do que a simples não adoção de novas tecnologias.

A ideia de que "a qualidade se paga" ressoa fortemente no contexto da IA. A adoção de soluções de IA de baixa qualidade ou mal implementadas pode não apenas falhar em entregar os benefícios esperados, mas também prejudicar a reputação e a confiança do cliente. Portanto, a banca mediana parece estar apostando em uma abordagem ponderada, onde a tecnologia é integrada de forma a complementar e fortalecer os atributos de qualidade e a relação de confiança já estabelecidos com seus clientes, em vez de ser vista como um fim em si mesma.

Perguntas em Aberto e o Futuro da IA na Banca Média

Embora a banca mediana demonstre otimismo e estratégias claras para competir em IA, algumas questões permanecem em aberto. A velocidade com que as grandes entidades continuarão a avançar em suas próprias iniciativas de IA, e como a banca mediana manterá o ritmo de inovação sem comprometer sua saúde financeira, são pontos de atenção. A capacidade de atrair e reter talentos em IA também pode se tornar um diferencial competitivo significativo, especialmente quando comparada com a vasta disponibilidade de recursos das grandes instituições.

Além disso, o cenário regulatório em torno da IA está em constante evolução. Como as regulamentações impactarão a implementação e o uso da IA por bancos de médio porte, e se haverá a necessidade de adaptações específicas para garantir a conformidade e a ética, são questões a serem observadas. A forma como a banca mediana continuará a equilibrar a adoção de novas tecnologias com a manutenção de sua identidade e a proximidade com o cliente definirá seu sucesso futuro neste novo paradigma. A colaboração com parceiros tecnológicos e a agilidade na adaptação serão cruciais para navegar neste cenário dinâmico e competitivo.

Source · Forbes España