O mercado brasileiro de criptoativos entrou em uma nova fase com o encerramento do prazo para que empresas de ativos virtuais solicitassem autorização de funcionamento ao Banco Central (BC). A medida, parte da regulamentação estabelecida pela Lei nº 14.478, sancionada em dezembro de 2022, e detalhada por resoluções publicadas em novembro de 2025, visa trazer mais segurança jurídica e operacional ao setor.

As companhias enquadradas como Prestadoras de Serviços de Ativos Virtuais (PSAVs), responsáveis por atividades como compra, venda, troca, custódia e intermediação de criptoativos, precisaram obter a chancela do BC para continuar operando legalmente no país. Segundo apurações, um número expressivo de empresas, incluindo gigantes globais como Binance e Coinbase, além de instituições brasileiras como Mercado Bitcoin, Nubank e Itaú, protocolaram seus pedidos. Outras, como Onda Finance, foram as primeiras a buscar a licença, com a estratégia de atuar como provedoras de infraestrutura para outras empresas.

Um Novo Cenário Regulatório

A nova regulamentação classifica as PSAVs como Tipo 3 junto ao Banco Central, impondo uma série de exigências rigorosas. Entre elas, destacam-se a necessidade de capital mínimo, uma estrutura gerencial robusta, adesão a normas contábeis específicas, o envio periódico de informações detalhadas ao regulador e regras claras de divulgação. Essa estrutura visa garantir a solidez financeira e a transparência das operações, mitigando riscos para os consumidores e para o sistema financeiro como um todo. A aprovação dessas resoluções pelo BC, após consulta pública, representa o culminar de um processo que busca equilibrar inovação com proteção e estabilidade.

O mercado, de modo geral, recebeu a regulamentação com otimismo. A principal expectativa é a redução da insegurança jurídica, que historicamente tem sido um entrave para o desenvolvimento e atração de investimentos no setor. Com regras claras sobre o que é permitido e o que não é, as empresas esperam um ambiente mais propício para o desenvolvimento de novos serviços e a expansão de negócios. Fabio Plein, diretor da Coinbase para as Américas, ressaltou que uma regulamentação bem definida fortalece a confiança do consumidor e permite que empresas inovadoras atuem de forma responsável, enquanto a empresa se adapta às exigências gradualmente.

Consolidação e Custos Elevados

A principal consequência esperada da regulação é uma forte consolidação do setor. Estimativas indicam que o mercado pré-regulação reunia cerca de 200 empresas. Com as novas exigências, espera-se que esse número se reduza drasticamente. Fontes do setor apontam que o custo médio mensal para manter uma empresa em conformidade com as exigências do Banco Central pode chegar a R$ 2 milhões. Esse valor, consideravelmente alto, é um obstáculo significativo, especialmente para empresas menores ou com lucros anuais que não comportam tal despesa operacional. A consequência natural será a saída do mercado de muitas empresas que não possuem a capacidade financeira ou a estrutura necessária para atender a esses requisitos.

Algumas exchanges globais, como a Binance, precisaram retirar certos serviços de sua plataforma brasileira para se adequar às normas vigentes, com a esperança de reintroduzi-los no futuro. Outras, como a Bitso, optaram por transferir sua base de clientes para parceiros já licenciados, como o Mercado Bitcoin, e focar em outras regiões. Empresas que não obtiveram a licença podem continuar operando por meio de parceiros que possuam a autorização, utilizando modelos como Crypto as a Service (CaaS), que permitem oferecer serviços de cripto sem a necessidade de uma licença própria.

Implicações para o Investidor e o Futuro

Para os investidores, a nova regulamentação tende a trazer maior segurança. A operação sob supervisão do Banco Central implica em maior proteção contra fraudes, falhas operacionais e práticas abusivas. A exigência de capital mínimo e a supervisão contínua visam garantir a solvência das PSAVs e a integridade dos fundos dos clientes. No entanto, a consolidação do mercado pode significar menos opções de plataformas e serviços disponíveis, concentrando o poder em um número menor de players.

O Mercado Bitcoin, por exemplo, que já possui uma corretora de valores mobiliários regulada pelo BC, optou por solicitar a licença específica para sua exchange original para evitar a complexidade de migrar clientes. Essa estratégia demonstra a importância de manter a operação onde a maior parte da base de clientes está concentrada, mesmo com a existência de uma estrutura já regulada.

Perguntas em Aberto

Embora a regulamentação traga um marco de clareza e segurança, algumas questões permanecem em aberto. A velocidade com que o Banco Central analisará e concederá as autorizações ainda é uma incógnita, assim como a forma como as empresas que não obtiverem licença se reorganizarão no mercado. A capacidade das PSAVs remanescentes de inovar e expandir seus serviços, mantendo a conformidade, será crucial para o futuro do ecossistema cripto brasileiro. A transição para um mercado mais regulado, embora necessária, impõe desafios significativos que testarão a resiliência e a adaptabilidade das empresas.

A expectativa é que, a médio e longo prazo, a regulação fomente um ambiente mais maduro e confiável, atraindo investimentos institucionais e consolidando o Brasil como um polo de inovação responsável no cenário global de ativos digitais. A jornada, contudo, está apenas começando.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times