A cúpula do setor bancário espanhol enviou um sinal claro aos reguladores europeus nesta semana: a atual fragmentação do mercado é o principal entrave para a competitividade do continente. Em evento organizado por associações bancárias em Madri, os CEOs de Caixabank, BBVA e Banco Santander convergiram em uma crítica comum sobre o custo de operar sob 27 regimes distintos, que impedem a escala necessária para enfrentar a concorrência global.

Segundo reportagem da Forbes España, o movimento reflete uma preocupação crescente com a perda de relevância da Europa. Enquanto os Estados Unidos e a China operam como blocos unificados, a Europa permanece presa a interpretações nacionais divergentes e regras que, embora tecnicamente similares, criam obstáculos operacionais severos para instituições que buscam atuar além de suas fronteiras domésticas.

O custo da fragmentação institucional

O debate sobre a convergência regulatória não é novo, mas ganha urgência diante do cenário macroeconômico. Carlos Torres, presidente do BBVA, descreveu o fenômeno como um "arancel do 110%", referindo-se aos custos de oportunidade gerados pela necessidade de adaptar processos a cada jurisdição. O executivo destacou que, mesmo quando as normas são padronizadas, a variação na interpretação dos supervisores nacionais cria ineficiências que impedem o uso pleno da tecnologia e da estratégia corporativa em escala europeia.

Essa barreira, frequentemente chamada de "fragmentação", atua como um freio de mão para as instituições. O CEO do Banco Santander, Héctor Grissi, foi enfático ao afirmar que, sem mudanças estruturais rápidas, a Europa não conseguirá sustentar sua competitividade. Para o setor, o tempo é um recurso escasso e a burocracia excessiva, embora bem-intencionada, acaba por limitar a capacidade de crescimento dos bancos que tentam consolidar uma presença continental.

Rentabilidade como pilar de solidez

Um dos pontos centrais da discussão foi a relação entre rentabilidade e estabilidade. Grissi argumentou que a solidez de um banco não depende apenas de seus níveis de capital — citando o caso do Credit Suisse como exemplo de que uma alta ratio de capital não evita crises se o modelo de negócio for deficitário. A rentabilidade, segundo os executivos, é a única forma de garantir que o capital seja sustentável a longo prazo.

Os bancos pedem, portanto, um equilíbrio entre a necessidade de supervisão e a flexibilidade para competir. O excesso de exigências regulatórias, muitas vezes visto como um excesso de zelo, é apontado como um fator que retira recursos que poderiam ser destinados à inovação e à expansão. A busca por um ambiente "business friendly", comparável ao que se encontra nos Estados Unidos, tornou-se a nova diretriz estratégica para os grandes players do mercado financeiro europeu.

A urgência da união de mercados de capitais

Além da regulação bancária, a integração dos mercados de capitais europeus foi identificada como uma falha estrutural crítica. Gonzalo Gortazar, CEO do Caixabank, observou que, embora exista uma vontade política de unificar fundos de garantia de depósitos, ainda restam abismos fiscais e mercantis. A falta de um mercado integrado impede que a poupança europeia seja canalizada de forma eficiente para projetos de investimento que impulsionem o crescimento.

Para os líderes do setor, o problema da Europa é de escala e oportunidade. Enquanto os EUA possuem um ambiente que atrai capital e talento com facilidade, a Europa opera em compartimentos estanques. A integração é vista, portanto, não apenas como uma conveniência para os bancos, mas como uma necessidade existencial para que a economia europeia consiga dialogar de igual para igual com as outras grandes potências mundiais nas próximas décadas.

A fronteira da inteligência artificial

O impacto da inteligência artificial também ocupou espaço central nas discussões. Os executivos veem na IA a oportunidade mais significativa desde a revolução industrial, mas alertam para a necessidade de uma estrutura financeira robusta que suporte os investimentos massivos exigidos. A regulação da IA, na visão dos bancos, deve focar em incentivar o desenvolvimento e a adoção, em vez de apenas impor restrições que dificultem a competitividade.

O desafio, segundo o BBVA, não reside na tecnologia em si, mas na capacidade das instituições de adotá-la para ganhar eficiência. A questão que permanece é se o arcabouço regulatório europeu será capaz de evoluir na velocidade necessária para que a banca do continente não apenas sobreviva, mas lidere a transformação digital que moldará o futuro do sistema financeiro global.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España