A adoção de inteligência artificial deixou de ser um experimento para se tornar uma necessidade no setor financeiro da América Latina. O consenso entre executivos reunidos em um fórum da Red Hat em Buenos Aires é claro: a tecnologia é crucial para a eficiência. Contudo, a prática revela um abismo entre o discurso e a realidade, com a maioria das iniciativas ainda em estágio de prova de conceito, sem impacto direto no negócio.

O dilema foi capturado na fala de Fernando Carozza, executivo do Banco Galicia, que alertou contra o “pelotazo tecnológico”: o ato de lançar a tecnologia na operação sem estratégia, esperando um resultado milagroso. A análise que emerge é que, embora o potencial seja reconhecido, o medo de perder o controle e a falta de uma tese de negócio clara estão freando o avanço real da IA nos bancos da região.

O dilema da automação

Os benefícios da IA não são teóricos. Em um caso apresentado no evento, o Bancolombia detalhou uma economia de quase US$ 1,6 milhão e mais de 50 mil horas de trabalho em apenas seis meses com projetos de automação. “Falar de IA já não é um experimento, é algo que qualquer sistema moderno deve estar pronto”, afirmou Sebastián García, da ACI Worldwide, ecoando o sentimento de urgência por eficiência e redução de custos.

No entanto, essa urgência esbarra em um temor fundamental. Segundo Lily Mendia, da SoFi Tech Solutions, existe um receio em permitir que agentes de IA tomem decisões de forma autônoma. Atualmente, a maioria dos sistemas em operação na indústria bancária atua de forma guiada, sempre aguardando a confirmação de um operador humano. A automação plena, que destrava o maior valor, permanece uma fronteira distante.

O risco mora nos agentes

O receio não é infundado. A cibersegurança é a principal barreira, e os dados são alarmantes. Victoria Martínez, gerente de plataformas de IA da Red Hat para a América Latina, foi taxativa ao afirmar que “80% dos sequestros de dados provêm dos agentes”. Esse risco exige a implementação de rígidos controles de identidade, governança e observabilidade contínua para evitar a introdução de novas vulnerabilidades.

Essa cautela ajuda a explicar por que, apesar da proliferação de projetos, o impacto financeiro ainda é baixo. “Hoje, nos bancos na América Latina, há muitos assistentes, copilotos, APIs externas, mas pouco uso real em algo que comece a gerar dinheiro”, disse Martínez. A crítica é direta: a indústria está presa em pilotos que não se convertem em produtos ou em receita, a materialização do “pelotazo tecnológico”.

O desafio para os bancos latinos, portanto, não é apenas tecnológico, mas estratégico. A capacidade de inovar sem perder a rastreabilidade e de automatizar sem abrir mão da responsabilidade definirá os líderes da próxima geração de serviços financeiros. O jogo da IA já começou, mas, por enquanto, a maioria dos times parece mais preocupada em não sofrer um gol do que em marcar o seu.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · La Nación — Tecnología