O debate sobre o papel dos bancos multilaterais de desenvolvimento (BMDs) no financiamento climático tem sido dominado por uma métrica simplista: o volume total de capital mobilizado. No entanto, um novo relatório da ODI Global, intitulado "Reforming Multilateral Development Banks: Perspectives from Client Countries", propõe uma mudança de foco necessária ao ouvir diretamente as nações que dependem dessas instituições. O levantamento revela que, embora o esforço político para expandir a capacidade de empréstimo dos bancos tenha ganhado tração, a execução prática permanece travada por obstáculos estruturais profundos.

A tese central do documento é que o financiamento, por si só, é insuficiente sem um pipeline de projetos robustos. Para as economias em desenvolvimento, o desafio não reside apenas na escassez de crédito, mas na fragilidade institucional que impede a transformação de metas climáticas em planos de investimento bancáveis. A análise sugere que a eficácia dos BMDs deve ser medida pela sua capacidade de atuar como facilitadores técnicos e regulatórios, e não apenas como provedores de liquidez em larga escala.

O abismo entre a meta e a execução

A pressão internacional por reformas nos BMDs atingiu um ápice em 2024, sob a presidência brasileira do G20, com o endosso de um mapa de ações para tornar essas instituições mais eficazes. O objetivo de mobilizar US$ 1,3 trilhão anuais até 2035 reflete uma ambição global crescente. Contudo, a pesquisa da ODI expõe uma desconexão preocupante: mais da metade dos países respondentes aponta a baixa capacidade institucional interna como o maior entrave para acessar esses recursos.

A ausência de verbas não reembolsáveis destinadas especificamente à preparação de projetos cria um ciclo vicioso. Sem estudos de viabilidade e modelagem financeira adequados, muitos países sequer conseguem submeter propostas que atendam aos critérios de risco das instituições multilaterais. Esse gargalo, somado à burocracia excessiva, faz com que o tempo entre a concepção de um projeto e o primeiro desembolso seja considerado proibitivo por 44% dos governos consultados.

A fragmentação como custo oculto

Outro ponto de atrito reside na falta de coordenação entre os próprios bancos multilaterais. A fragmentação de esforços em áreas como assistência técnica e cofinanciamento gera custos operacionais adicionais, reduzindo a efetividade do sistema global de desenvolvimento. A falta de harmonização nas exigências e nos processos de aprovação sobrecarrega os governos nacionais, que muitas vezes precisam navegar por diferentes protocolos para viabilizar uma única iniciativa climática.

O relatório argumenta que o papel dos BMDs precisa evoluir para uma função mais estruturante. Isso envolve fortalecer políticas públicas, aprimorar marcos regulatórios e, fundamentalmente, ampliar a capacidade de mobilizar capital privado. O sucesso de iniciativas como o Eco Invest e a Brazilian Investment Platform (BIP) no Brasil serve como um exemplo de como a coordenação institucional pode mitigar riscos, mas a escala ainda é insuficiente frente à magnitude da crise climática.

Implicações para o ecossistema brasileiro

Para o Brasil e outros mercados emergentes, a lição é clara: a reforma dos BMDs deve priorizar a capilaridade. O fortalecimento de governos subnacionais é um passo crítico, uma vez que é na esfera local que a maioria dos projetos de transição energética e adaptação climática é implementada. O desafio político, portanto, é garantir que essas reformas não sejam apenas um exercício de otimização de balanços, mas uma estratégia de longo prazo para fortalecer a resiliência institucional.

A instabilidade geopolítica e as restrições fiscais globais adicionam uma camada de urgência a este movimento. Instituições mais ágeis e orientadas a resultados tornam-se, por definição, mais resilientes aos ciclos políticos e às mudanças de prioridades dos países doadores. A efetividade do financiamento climático, portanto, dependerá da capacidade desses bancos de se tornarem parceiros de longo prazo na construção de capacidades locais.

O futuro do financiamento climático

O que permanece incerto é a disposição dos acionistas dos BMDs em aceitar um modelo que priorize a assistência técnica em detrimento da velocidade de desembolso de grandes volumes. A transição para um modelo focado em resultados exigirá um alinhamento fino entre as expectativas dos países clientes e as exigências de governança das instituições multilaterais.

Observar como os próximos ciclos de revisão de capital integrarão essas demandas de preparação de projetos será o termômetro para medir o sucesso da atual agenda de reformas. O financiamento climático não é apenas uma questão de capital, mas de engenharia institucional. A capacidade dos BMDs de atuar como pontes entre a ambição política e a realidade técnica definirá se o objetivo de US$ 1,3 trilhão será alcançado ou se permanecerá como uma promessa distante.

O debate está posto e a necessidade de uma reforma que priorize a execução é evidente. Resta saber se a arquitetura financeira global terá a agilidade necessária para se adaptar a essa nova exigência de eficiência operacional em um mundo sob pressão climática constante.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Capital Reset