O aroma de cerveja gelada e o burburinho de conversas preenchem o ar, mas o som dominante não vem de um campo de futebol masculino ou de uma quadra de basquete tradicional. Em vez disso, as telas exibem a agilidade de uma jogadora de vôlei, a força de uma atleta de basquete ou a precisão de uma jogadora de tênis. Há poucos anos, essa cena seria rara. Em 2021, bares dedicados exclusivamente a esportes femininos eram praticamente inexistentes. Hoje, mais de 27 operam nos Estados Unidos, com outros 12 em processo de planejamento ou construção. Essa expansão meteórica, que viu o número desses estabelecimentos quadruplicar em 2025, reflete um movimento cultural e esportivo em ebulição.
O fenômeno ganhou força em 2022, com a abertura do The Sports Bra em Portland e do Rough & Tumble Pub em Seattle. O que antes dependia quase que inteiramente da transmissão de grandes eventos, hoje se estabelece como um ponto de encontro familiar, um "segundo lar" para sua comunidade, como descreve Jen Barnes, proprietária do Rough & Tumble. "As mulheres praticam esportes praticamente o ano todo agora, então a novidade já passou, mas isso é bom", diz Jillian Hiscock, dona do A Bar of Their Own em Minneapolis, inaugurado no início de 2024. Essa consolidação é impulsionada pela proliferação de ligas profissionais femininas e pelo aumento expressivo na audiência, culminando em acordos de mídia cada vez mais robustos. Ligas como a Women's Professional Baseball League (2026), a Women's Lacrosse League (2026) e a League One Volleyball (2025) surgiram, enquanto outras mais estabelecidas, como a NWSL e a PWHL, fortaleceram seus contratos. Isso aliviou um dos primeiros grandes obstáculos: a fragmentação de plataformas de streaming, que tornava o acesso aos jogos um desafio caro e complexo.
A consolidação do mercado, no entanto, não isenta esses estabelecimentos dos desafios inerentes à indústria da hospitalidade. Custos flutuantes de alimentos e bebidas, além da pressão sobre o poder de compra dos consumidores, exigem adaptação constante. "As margens na indústria de restaurantes já são muito estreitas", explica Barnes. "Com as tarifas, ficou pior para todos. Se quiséssemos atingir nossas margens ideais, teríamos que vender um hambúrguer e batatas fritas por US$ 40, mas simplesmente não podemos fazer isso." Essa realidade força os proprietários a inovar. Jenny Nguyen, fundadora do The Sports Bra, relata uma queda de cerca de 10% nas vendas anuais, com clientes optando por uma bebida a menos ou um aperitivo em vez de um prato principal. "Estamos pensando em como expandir nosso happy hour ou oferecer porções menores", comenta. Para complementar a receita, muitos bares investem em eventos especiais e programação voltada para seu público principal – majoritariamente feminino e queer –, uma estratégia que atrai cada vez mais o interesse de marcas e atletas. O A Bar of Their Own, por exemplo, organizou uma festa para assistir à final do US Open, patrocinada pela Dove, e planeja um evento com a jogadora Natasha Howard. O Pride party anual do The Sports Bra também se tornou uma fonte crucial de receita e engajamento.
O The Sports Bra, em particular, tem ambições expansivas notáveis. Com um aporte de capital da 776 Foundation, de Alexis Ohanian, o bar anunciou quatro novas unidades franqueadas em 2025 e mais uma em 2026, com planos de ter 40 locais em todo o país até 2030, visando US$ 75 milhões em receita anual. A fundadora Jenny Nguyen identifica ainda uma "lacuna gigante no mercado de mercadorias de esportes femininos" e uma oportunidade de criar conteúdo de marca, sugerindo a expansão para um braço de mídia formal. Essa visão ambiciosa contrasta com as finanças recentes do bar, que registraram uma queda de 18% nas vendas entre 2024 e 2025 e um aumento nas perdas operacionais. Nguyen atribui isso a despesas iniciais de transição para uma organização nacional, mas afirma que os déficits já foram cobertos. "As coisas no The Sports Bra são sempre desconfortáveis", admite. "Estamos crescendo muito rápido, de forma não natural. Nada do que o The Sports Bra está fazendo agora é em um ritmo normal para um negócio." Essa tensão entre crescimento acelerado e sustentabilidade operacional parece ser a marca da categoria.
A capacidade desses estabelecimentos de escalar, saindo da condição de novidade para se tornarem negócios resilientes, é a próxima grande questão. O calendário esportivo, no entanto, apresenta oportunidades promissoras. A Copa do Mundo Feminina de 2027, seguida pelos Jogos Olímpicos de Los Angeles em 2028 – com paridade de gênero em número de atletas –, e a potencial candidatura dos EUA para sediar a Copa do Mundo Feminina de 2031, podem impulsionar ainda mais o setor. A jornada dos bares de esportes femininos é um testemunho da crescente força e visibilidade do esporte feminino, mas a busca por um modelo de negócio que equilibre paixão comunitária e viabilidade financeira continua em jogo.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Front Office Sports





