Em um cenário econômico marcado por juros elevados e volatilidade, a sobrevivência e o crescimento de empresas dependem de uma gestão equilibrada entre a satisfação do cliente e a saúde financeira. Florian Bartunek, fundador da Constellation Asset Management e figura conhecida no mercado financeiro brasileiro, resume essa premissa em uma máxima poderosa: "Um olho no cliente e outro no caixa". Com mais de três décadas de experiência, Bartunek defende que a longevidade empresarial é construída sobre a capacidade de navegar por períodos de incerteza, priorizando a sustentabilidade financeira em detrimento da expansão acelerada e arriscada.

O Equilíbrio Entre Expansão e Caixa

A jornada de Bartunek no mercado financeiro, iniciada em 1989, o expôs a diversas turbulências econômicas, desde confiscos de poupança a crises cambiais e pandemias. Essa vivência moldou sua visão de que a ânsia por enriquecer rapidamente pode ser uma armadilha, levando a decisões precipitadas que comprometem a estrutura do negócio. A recomendação central é que o ritmo de crescimento de uma empresa deve ser intrinsecamente ligado à sua capacidade de caixa. Em vez de buscar metas de expansão em prazos curtos, sacrificando a saúde financeira, Bartunek sugere um planejamento mais conservador: crescer conforme a disponibilidade de recursos. Essa abordagem não significa renunciar a oportunidades, especialmente em tempos de crise, que podem ser terreno fértil para empresas eficientes ganharem mercado. A máxima é clara: "Uma empresa ruim quebra, uma empresa boa sobrevive, uma empresa espetacular cresce ainda mais".

Inteligência Artificial como Aliada Estratégica

Embora a prudência financeira seja um pilar, Bartunek não advoga por uma estagnação em investimentos. Pelo contrário, ele enxerga a inteligência artificial (IA) como uma ferramenta crucial para aprimorar a produtividade e otimizar custos, acessível até mesmo para pequenas e médias empresas. Ele incentiva os empreendedores a experimentarem a IA de forma gradual e focada, selecionando equipes talentosas para resolver problemas específicos. A IA, segundo ele, democratiza o acesso a tecnologias antes restritas a grandes corporações, transformando atividades que levavam horas em minutos e ampliando a capacidade operacional sem um aumento proporcional de custos. Contudo, Bartunek ressalta que a tecnologia não substitui o julgamento humano, especialmente em processos seletivos complexos. O desafio reside não apenas em compreender o potencial da IA, mas em sua implementação efetiva, o que requer profissionais capazes de integrar essas ferramentas aos processos cotidianos da empresa.

Cultura e Gestão de Talentos para a Longevidade

A construção de uma cultura organizacional sólida, que transcenda a presença do fundador, é outro fator essencial para a longevidade empresarial. Bartunek propõe um teste simples: observar o comportamento dos funcionários na ausência do líder. Se os valores e padrões de conduta se mantêm, a empresa possui uma estrutura robusta. Essa cultura é moldada pelo exemplo dos líderes e se manifesta em um ambiente onde o comprometimento não depende de supervisão direta. Na gestão de pessoas, ele defende uma combinação de meritocracia, generosidade e exigência. Pagar igualmente bons e maus profissionais leva à perda dos melhores talentos, e a tolerância a comportamentos prejudiciais ao ambiente de trabalho pode minar a equipe. A analogia com Roger Federer, que, apesar de um esporte individual, depende de uma equipe, ilustra a importância do coletivo no sucesso empresarial. A preparação contínua é, para Bartunek, um diferencial diário, superando o talento inato.

Perspectiva Econômica e Resiliência

Bartunek relativiza o pessimismo exacerbado em relação ao ambiente econômico brasileiro, lembrando as adversidades já superadas ao longo de sua carreira. Ele argumenta que a excessiva preocupação com notícias negativas e discussões online pode paralisar empreendedores justamente quando a ação é necessária. O foco deve ser direcionado ao que está sob controle: aprimorar produtos, atender clientes, aumentar a eficiência e manter a saúde financeira. Para o setor de varejo, em particular, ele aconselha um conservadorismo ainda maior, dada a complexidade de gerenciar estoques, despesas e capital de giro com margens apertadas. A postura do líder, sua capacidade de motivar e de reagir a problemas com resiliência, também influencia diretamente a equipe. O medo, quando canalizado para a prudência, pode ser um aliado, mas nunca um impeditivo para a ação. A pergunta que Bartunek sugere aos empreendedores é simples, mas poderosa: "O que eu posso fazer de bom para o meu cliente?".

Para Bartunek, a resposta a essa pergunta, aliada à disciplina financeira, ao investimento estratégico em tecnologia, à valorização das pessoas e à persistência, é o que diferencia as empresas que apenas sobrevivem daquelas que emergem mais fortes das crises.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney