O Banco Central do Brasil (BC) não identifica, até o momento, sinais de que o recente choque nos preços do petróleo e seus derivados esteja se propagando de forma relevante para a inflação brasileira por meio de efeitos de segunda ordem. A avaliação, detalhada no Relatório de Política Monetária referente ao segundo trimestre de 2026, sugere que o ambiente econômico atual tem limitado a capacidade das empresas de repassar aumentos de custos e que a atenção das famílias à inflação não se elevou de maneira persistente.
Efeitos de segunda ordem na inflação ocorrem quando os impactos primários de um choque de preços, como o do petróleo, levam a reajustes em outros preços e salários na economia. Isso pode se manifestar quando empresas antecipam futuros aumentos de custos e elevam seus preços de venda preventivamente, ou quando reajustes salariais buscam compensar perdas inflacionárias e são, por sua vez, repassados aos preços de bens e serviços. Tradicionalmente, esses efeitos são um ponto de atenção para as autoridades monetárias, que podem precisar responder com políticas mais restritivas. Segundo o relatório do BC, embora esses efeitos possam demorar a se materializar, não há, no momento, indícios de aceleração inflacionária em segmentos não diretamente expostos aos preços de energia, nem uma disseminação de aumentos salariais que sugira pressão inflacionária.
Mecanismos de Propagação Sob Observação
O relatório do BC reconhece que a dinâmica dos preços do petróleo tem sido volátil. No segundo trimestre de 2026, o preço do Brent oscilou consideravelmente, com projeções que antecipavam uma queda mais acentuada após um pico no quarto trimestre. Desenvolvimentos geopolíticos, como um memorando de entendimento entre os EUA e o Irã, chegaram a pressionar os preços para baixo, mas tensões posteriores e o conflito entre Rússia e Ucrânia voltaram a adicionar incertezas. A trajetória de referência do preço do Brent considera um valor médio de US$ 90 no terceiro trimestre de 2026, com pico no quarto trimestre, seguido por uma queda gradual até meados de 2027. Essa projeção é cerca de 2% inferior à do relatório anterior, incorporando uma normalização das margens de refino e o fim de subsídios a combustíveis.
O BC admite que alguns indicadores, como as expectativas de inflação de empresas e consumidores e as projeções de custos de mão de obra, mostraram aumento após o início do conflito no Oriente Médio. Fatores como a inflação próxima ao teto da meta, expectativas desancoradas e um mercado de trabalho aquecido poderiam, em tese, favorecer a propagação. No entanto, a autoridade monetária considera que esses riscos são mitigados pela política monetária em território restritivo e, crucialmente, pela ausência de um aumento persistente na atenção pública a temas inflacionários. Dados do Google Trends e pesquisas de opinião global indicam que o choque recente não gerou um aumento significativo na preocupação das famílias com a inflação, o que tende a limitar sua influência sobre as expectativas e a materialização de efeitos de segunda ordem.
Formação de Preços e Margem das Empresas
Na frente de formação de preços, os resultados de pesquisas como a Firmus não apontam para um risco elevado de propagação inflacionária. A maioria das empresas relatou dificuldades em repassar integralmente o aumento dos custos associados a derivados de petróleo, frete, logística e outros insumos. Cerca de 43% das firmas reportaram aumento nos preços de venda, sugerindo que parte do choque está sendo absorvida pela compressão das margens de lucro. Contudo, as expectativas de inflação das empresas, coletadas pela mesma pesquisa, apresentaram um aumento entre fevereiro e agosto de 2026, especialmente para 2026 e 2027. Esse movimento sugere um ambiente potencialmente mais propício à materialização de efeitos de segunda ordem, mas as evidências diretas sobre o repasse de preços ainda indicam capacidade limitada das empresas nesse sentido.
Dinâmica Salarial e o Mercado de Trabalho
No que tange à formação de salários, o BC também observa uma contribuição limitada para a propagação do choque atual. Embora os dados da PNAD Contínua ainda mostrem crescimento nominal expressivo nos rendimentos, há uma moderação nos aumentos após o início do conflito no Oriente Médio, tanto em termos nominais quanto reais. O rendimento médio real habitual recuou no trimestre encerrado em julho, indicando que os aumentos salariais não estão superando a inflação de forma disseminada. Da mesma forma, dados do Novo Caged sobre salários reais de admissão não mostram aceleração após o choque nos preços do petróleo. Embora os salários nominais de admissão continuem crescendo, a taxa não acelerou após o conflito. As negociações coletivas também não evidenciam pressões salariais crescentes de forma inequívoca, com reajustes nominais em convenções coletivas apresentando níveis estáveis ou em leve queda em comparação com períodos anteriores, embora dados por data de vigência possam indicar alguma inércia.
Perguntas em Aberto e Cenário Futuro
Diante desse quadro, os riscos de propagação inflacionária não podem ser totalmente descartados. A persistência das tensões geopolíticas e a volatilidade nos preços de commodities continuam sendo fatores a serem monitorados de perto. A capacidade das empresas de absorver custos ou repassá-los, bem como a evolução das expectativas inflacionárias de agentes econômicos, serão cruciais para determinar se os efeitos de segunda ordem se materializarão de forma mais ampla. O comportamento da política monetária, atualmente em território restritivo, também será um elemento chave na ancoragem das expectativas.
O BC reafirma a importância de acompanhar a evolução do choque de preços do petróleo e seus efeitos primários, mas reforça que, até o momento, os sinais de propagação via efeitos de segunda ordem são limitados. A análise detalhada dos canais de formação de preços e salários, bem como a vigilância sobre as expectativas de inflação, continuarão sendo fundamentais para a condução da política monetária em um cenário global incerto e com pressões inflacionárias latentes. A sustentabilidade do atual cenário de contenção inflacionária dependerá da capacidade de manter a ancoragem das expectativas e da ausência de novos choques significativos. Com reportagem de Brazil Valley
Source · InfoMoney





