O som que emana de Bezzy, uma pelúcia que tem chamado atenção, não é o choro de um bebê ou a melodia de uma canção de ninar. É o zumbido constante e penetrante de um data center real, gravado nos arredores de uma dessas instalações em um canto dos Estados Unidos. A boneca, com seus olhos redondos, sorriso cativante e um abdômen que imita um rack de servidores, é o centro de um projeto satírico e artístico chamado "Adopt a Data Center". Criado pelo estúdio criativo Basura, de Nova York, em colaboração com o projeto musical Big Data de Alan Wilkis, Bezzy e seus companheiros de projeto buscam expor as realidades muitas vezes ignoradas da infraestrutura que alimenta a revolução da inteligência artificial.

O Som da Nuvem

Rajeev Basu, artista por trás do projeto, descreve o processo de gravação como "aterrorizante". Ele e sua equipe precisaram se expor a uma cacofonia de "sons estridentes" para capturar a essência sonora dos data centers. A escolha final foi um zumbido que, segundo Basu, é "o mais adequado para o brinquedo", mas que ele mesmo não "desejaria a ninguém". Essa escolha deliberada de um som desagradável e perturbador é o cerne da crítica. Bezzy não é um brinquedo para conforto, mas um espelho que reflete a intrusão sonora e ambiental que a proliferação de data centers representa para as comunidades próximas. O projeto, que levou seis meses para ser concebido e entrevistou dezenas de pessoas afetadas, baseia-se em pesquisa sólida, apesar de sua abordagem satírica.

A Infraestrutura Invisível

A ascensão meteórica da inteligência artificial, impulsionada pelo lançamento do ChatGPT pela OpenAI em 2022, desencadeou uma corrida global por poder computacional. Gigantes como Microsoft, Meta e Google, assim como novas startups, demandam uma quantidade colossal de data centers para alimentar seus ambiciosos produtos. Essa expansão desenfreada, no entanto, tem gerado atrito. Comunidades em todo o país têm se manifestado contra a construção dessas instalações, citando preocupações com o meio ambiente, a sobrecarga das redes elétricas, o consumo de água e a perturbação da vida cotidiana. Protestos e proibições municipais em algumas cidades americanas evidenciam a crescente tensão entre o avanço tecnológico e o bem-estar local. Bezzy, com seu zumbido incômodo, dá voz a essas queixas, transformando a infraestrutura muitas vezes invisível em uma presença palpável e sonora.

Adote um Data Center

O projeto "Adopt a Data Center" vai além da pelúcia. O site da campanha oferece hyperlinks para reportagens e pesquisas sobre o tema, buscando um caráter educativo. Adesivos com frases como "Abra seu coração e sua rede elétrica" e "Por favor, adote-me, eu amo GPUs" complementam a iniciativa, com um tom irreverente que serve como gancho para atrair a atenção para um assunto sério. A ideia é convidar aqueles que talvez não estejam prestando atenção à expansão da infraestrutura de IA a "dar uma segunda olhada" e aprender um pouco mais. Em uma era onde os data centers se tornam cada vez mais comuns, Basu alerta que "um pode estar em seu quintal mais cedo do que você pensa".

O Eco do Progresso

As 20 edições limitadas da pelúcia Bezzy, lançadas em setembro, esgotaram rapidamente. O fenômeno coincide com um aumento nas vendas de pelúcias entre millennials e zoomers, que representaram mais de US$ 1,5 bilhão em vendas de brinquedos nos últimos três meses de 2024, segundo a Circana. Bezzy, portanto, não é apenas um artefato cultural que reflete a relação complexa entre humanos e a tecnologia que criamos, mas também um produto culturalmente relevante. Ao dar voz ao zumbido dos data centers, o projeto nos força a confrontar o custo real, sonoro e ambiental, do progresso digital. A questão que permanece é se a arte e a sátira podem, de fato, catalisar uma mudança de percepção e ação diante de uma infraestrutura cada vez mais onipresente e essencial.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Business Insider