Um rascunho de relatório preparado pela Convenção sobre Diversidade Biológica da ONU (CBD) traz um diagnóstico desolador: o mundo está a caminho de descumprir 22 das 23 metas estabelecidas no Acordo de Kunming-Montreal, o pacto global para a natureza firmado em 2022. A menos que haja uma “aceleração rápida” das ações, a missão de frear e reverter a perda de biodiversidade até 2030 “não será alcançada”.

O documento, que antecede a cúpula da natureza COP17, a ser realizada na Armênia em outubro, é mais do que um boletim de notas ruins. Ele expõe uma falha sistêmica que assombra os grandes acordos multilaterais: a distância entre a ambição declarada no papel e a capacidade de implementação no mundo real. A análise, baseada nos planos e relatórios enviados pelos próprios países, revela que o progresso é particularmente lento nos temas que tocam o bolso — a reforma de subsídios prejudiciais e a mobilização de recursos financeiros.

O abismo entre ambição e realidade

O relatório da ONU identifica duas lacunas centrais. A primeira é de ambição: os planos nacionais submetidos pelos países ainda não refletem a escala necessária para cumprir as metas globais. A segunda é de implementação: mesmo as metas nacionais mais modestas não estão sendo acompanhadas de ações suficientes. O resultado é um quadro onde “nenhum alvo apresenta um cenário totalmente positivo”.

A meta mais emblemática do acordo, a “30 por 30” (proteger 30% das terras e mares do planeta), exemplifica o problema. Embora haja algum avanço na expansão de áreas protegidas, a implementação é insuficiente, especialmente no que tange à governança equitativa e ao reconhecimento de territórios indígenas. O mesmo se aplica à meta de restaurar 30% das áreas degradadas, que sofre com falta de financiamento e definições inconsistentes. O recado é claro: mesmo os pilares do acordo estão em terreno movediço.

Onde o dinheiro fala mais alto

A verdadeira fratura do pacto, no entanto, está na economia. A Meta 18, que previa a identificação de subsídios nocivos à biodiversidade até 2025 e a redução de pelo menos US$ 500 bilhões anuais desses incentivos até 2030, mostra progresso “insuficiente”. O relatório aponta para dados incompletos e “interesses entrincheirados e barreiras políticas” que impedem a reforma. Os valores reportados pelos países são uma fração mínima dos trilhões estimados que a economia global direciona para atividades destrutivas.

Do outro lado da equação, o dinheiro para a conservação não aparece na velocidade prometida. A meta de mobilizar US$ 200 bilhões anuais de todas as fontes até 2030 está muito distante. O marco intermediário, de garantir pelo menos US$ 20 bilhões por ano em financiamento público internacional até 2025, “provavelmente não foi alcançado”. Dados do relatório indicam uma média de apenas US$ 4,4 bilhões anuais entre 2020 e 2023. Para países em desenvolvimento, que dependem desses recursos para financiar suas ações, a mensagem é de abandono.

Ironicamente, a única meta com avaliação “verde”, indicando progresso positivo, é a que visa minimizar o impacto da mudança climática na biodiversidade. A nota positiva é ofuscada pelo fato de que a crise climática e a da biodiversidade são indissociáveis e se retroalimentam. O relatório, ainda que preliminar, serve como um alerta severo para a COP17. A questão que paira sobre a Armênia não é apenas técnica, mas fundamentalmente política: os países estão dispostos a enfrentar os motores econômicos da destruição ambiental ou o Acordo de Montreal se tornará mais um pacto grandioso com pouca relevância prática?

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Carbon Brief