Bouchra é uma cineasta marroquina vivendo em Nova York. Ela também é uma coiote. No rescaldo do fim de um relacionamento, ela começa a trabalhar em um longa-metragem autobiográfico para tentar entender a distância emocional que sua sexualidade criou entre ela e sua mãe, que ficou em Casablanca.
Esta premissa, que poderia soar excêntrica, é o motor de Bouchra, uma animação independente de Orian Barki e Meriem Bennani. No universo do filme, todos são animais antropomórficos — a ex é uma vaca, o melhor amigo, um lagarto. Segundo reportagem da publicação britânica Little White Lies, essa camada de abstração, longe de criar distância, serve para “suavizar o realismo do filme”, permitindo que gestos mínimos, pausas constrangedoras e telefonemas hesitantes construam uma intimidade naturalista.
A nova fronteira da animação confessional
O filme se junta a uma crescente tradição de obras que exploram o próprio fazer cinematográfico, mas com uma honestidade emocional particular. A escolha de usar o Blender, um software 3D de código aberto, não é um mero detalhe técnico. Assim como em Flow, de Gints Zilbalodis, a ferramenta demonstra as possibilidades que se abrem para o storytelling visual quando a tecnologia se torna mais acessível. A animação independente encontra aqui um caminho para explorar narrativas adultas e complexas, sem as amarras de um grande estúdio.
O projeto de Bouchra dentro do filme materializa sua busca por uma resolução que ela mesma não consegue definir. Questões de assimilação, conflito geracional e a busca por pertencimento, comuns a histórias de migração, são atravessadas por uma tensão central: sua identidade queer. A leitura é que a experiência da expatriação é agravada pelo medo constante de rejeição daqueles cuja aceitação mais importa.
O exílio como espelho
Construir uma vida em outro lugar carregando o temor de que o “lar” talvez nunca mais possa acomodar quem você se tornou é o dilema no coração do filme. O mérito da obra, segundo a crítica, está em sua recusa a simplificar esse drama. A mãe de Bouchra não é retratada como uma vilã, mas como parte de um sistema complexo que sustenta preconceitos. O filme examina o dano profundo que o silêncio pode causar, apodrecendo em segredo.
A criação artística é apresentada não como uma solução mágica, mas como um processo de escavação, onde o filme se torna inseparável da tentativa da artista de reparar uma relação fraturada. O que se encontra ao final dessa busca, e se a resolução é sequer possível, são as perguntas que a obra deixa em aberto, persistindo muito depois que os créditos sobem.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Little White Lies





