O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) avança na estruturação do primeiro leilão de reserva de capacidade de baterias de grande porte do Brasil. Ao menos nove empresas já iniciaram o processo de habilitação junto ao banco para participar do certame, com datas marcadas para 2 e 4 de dezembro. O leilão estabelece uma exigência mínima de 15% de conteúdo nacional nos sistemas de armazenamento — requisito inédito no setor elétrico brasileiro.
Essa iniciativa não apenas visa garantir a segurança energética do país, mas também atuar como catalisador para o desenvolvimento de uma cadeia produtiva local robusta. O leilão oferece um preço-teto de R$ 1,76 milhão por MW/ano, 11% superior aos certames sem a exigência de conteúdo local, sinalizando um incentivo econômico para a participação e o investimento em tecnologia nacional. O processo de credenciamento do BNDES é rigoroso e ocorre em duas etapas: a habilitação da empresa como fornecedora e, posteriormente, a certificação do sistema de baterias, garantindo que os requisitos de conteúdo nacional sejam atendidos.
Indústria Verde em Formação
A resposta do mercado à exigência de conteúdo nacional tem sido expressiva. Até o momento, a brasileira You.On foi a única a concluir o credenciamento completo para seu modelo de bateria. Outras companhias, incluindo brasileiras como Moura, WEG e SecPower, e gigantes chinesas como BYD e Gotion, além da canadense Canadian Solar, já iniciaram a primeira etapa do processo de habilitação. Esse movimento sublinha o potencial de crescimento do setor e o interesse em desenvolver uma indústria de baterias no Brasil, que hoje é fortemente dependente da China na fabricação de células.
Alexandre Esposito, chefe da área de transição energética e clima do BNDES, destacou o "compromisso firme" das participantes e a expectativa de que todas cumpram as exigências, com diferentes níveis de conteúdo local. A comprovação de cada componente e a avaliação da capacidade produtiva das companhias são cruciais, especialmente considerando o cronograma de operação dos sistemas a partir de agosto de 2028. O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) projeta um risco de déficit de potência no país a partir de 2027, tornando a capacidade de armazenamento de energia um fator cada vez mais estratégico.
Rotas Tecnológicas e Incentivos Financeiros
O BNDES estruturou quatro "rotas" de credenciamento, variando o percentual de conteúdo nacional e a exigência de componentes produzidos localmente. A Rota 1, com um mínimo de 15% de conteúdo nacional e três componentes produzidos no Brasil (sendo um estratégico), deve atrair a maioria das empresas. No entanto, há potencial para que companhias alcancem rotas com maior participação de produção local. O objetivo de longo prazo, segundo Esposito, é convergir os custos de capital (capex) e o preço final entre projetos com e sem conteúdo nacional, equiparando a competitividade.
Além do acesso ao leilão, o credenciamento no BNDES habilita as empresas a buscarem financiamento do próprio banco. As condições de crédito são mais vantajosas quanto maior for a parcela de conteúdo nacional. Para as rotas 2 em diante, o financiamento provém integralmente do Fundo Clima, com custo nominal de 6,5% ao ano. Na Rota 1, 80% do crédito é do Fundo Clima, com o restante via outras linhas do BNDES. Essa estrutura de financiamento, que pode ser complementada por outras fontes como bancos públicos e privados, visa viabilizar projetos de grande porte e complexidade.
Implicações para o Ecossistema Brasileiro
A iniciativa do BNDES reflete uma estratégia de desenvolvimento industrial que busca replicar o sucesso obtido no setor de energia eólica, onde o conteúdo local foi um fator decisivo para a consolidação de uma cadeia produtiva nacional. A Associação Brasileira de Soluções de Armazenamento de Energia (Absae) vê a resposta de industrialização como "muito forte", comparando a complexidade da cadeia de componentes de baterias à do setor automotivo. A participação de players como Moura e WEG sinaliza um potencial de sinergia com outras áreas de atuação dessas empresas.
O Bradesco, por meio de sua superintendência de sustentabilidade, Fabiana Costa, aponta a necessidade de os bancos trabalharem com um portfólio diversificado de produtos financeiros, incluindo debêntures incentivadas e fianças, para atender à natureza específica do setor de baterias. O recente leilão do Eco Invest, arrematado pelo Santander, que mobilizará R$ 6,5 bilhões, também demonstra o crescente interesse do mercado financeiro em mobilidade elétrica e baterias, considerando o segmento de armazenamento como o mais maduro entre as frentes temáticas. Esse cenário aponta para um futuro promissor para a indústria de baterias no Brasil, com potencial de atrair investimentos significativos e gerar empregos qualificados.
Perguntas em Aberto e o Futuro do Armazenamento
Embora o leilão e o avanço no processo de habilitação de empresas representem um passo relevante, algumas questões ainda pairam sobre o futuro do armazenamento de energia no Brasil. A definição sobre o rateio dos custos dos sistemas, que hoje se prevê serem repassados às geradoras de energia, é um ponto crucial que pode impactar a atratividade dos projetos. A clareza nessas regras é fundamental para atrair ainda mais investimentos e garantir a sustentabilidade do modelo.
Além disso, a capacidade de a indústria nacional evoluir para atender a requisitos de conteúdo local cada vez mais ambiciosos será um fator determinante. A dependência de componentes importados, especialmente as células de bateria, ainda é um desafio a ser superado. Acompanhar a evolução tecnológica e a competitividade de preço em relação aos mercados internacionais será essencial para consolidar o Brasil como um player relevante no cenário global de armazenamento de energia.
A expectativa é que os leilões de bateria, aguardados há anos, proporcionem a flexibilidade e a potência necessárias para o setor elétrico, que tem visto um crescimento acelerado de fontes intermitentes como solar e eólica. O sucesso desta iniciativa definirá o ritmo e a escala da adoção de sistemas de armazenamento no país, moldando o futuro da matriz energética brasileira. A formação de uma indústria nacional sólida em baterias é um objetivo estratégico que exigirá colaboração contínua entre o setor público, privado e o mercado financeiro.
Com reportagem de Brazil Valley
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