As ações da Boa Safra (SOJA3) dispararam na bolsa após a companhia de sementes anunciar uma carteira de pedidos recorde de R$ 1,8 bilhão para o segundo trimestre de 2026, um avanço de 4% na comparação anual. O número, somado a uma gestão de caixa melhor que a esperada, impulsionou os papéis em mais de 18% em um único pregão.

Contudo, a euforia do mercado mascara uma história de transição e risco. Por trás do número recorde, esconde-se uma queda de 12% nos pedidos do principal negócio da empresa, as sementes de soja. A leitura aqui é que, enquanto a Boa Safra comemora a manchete, o desafio real está na execução de uma nova estratégia de diversificação e na gestão de uma alavancagem ainda elevada.

As nuances da carteira

O crescimento da carteira de pedidos foi sustentado não pelo carro-chefe, mas pela diversificação. Segundo reportagem do Money Times, os pedidos relacionados a outras culturas e serviços saltaram de R$ 52 milhões para R$ 337 milhões em um ano, passando a representar 19% do total. A XP Investimentos avalia o movimento como alinhado à estratégia de buscar ganhos de escala e eficiência, mesmo com um crescimento geral modesto.

Este é o ponto central da tese de investimento na companhia hoje: uma aposta na capacidade da Boa Safra de transformar seu portfólio. O BTG Pactual, embora considere a diversificação positiva, mantém uma postura mais sóbria, lembrando que a soja ainda é, de longe, o principal motor de receita. A queda nos pedidos do grão, atribuída pela empresa a uma decisão de compra mais tardia dos produtores, adiciona uma camada de incerteza.

O caixa e a cautela

Outro ponto que animou os investidores foi o fluxo de caixa, que ficou negativo em R$ 79 milhões, bem melhor que a queima de R$ 200 milhões projetada pela XP. Para a corretora, o dado é encorajador e pode ajudar na trajetória de desalavancagem da empresa. A qualidade do crédito também permaneceu sob controle, sem surpresas negativas.

O BTG Pactual, no entanto, levanta uma questão crucial sobre a sustentabilidade dessa melhora. O banco aponta que o resultado foi impulsionado por uma mudança expressiva no ciclo de pagamentos a fornecedores e royalties, e questiona se o efeito é estrutural ou apenas pontual. A cautela é justificada pela alavancagem da companhia, que fechou o trimestre em 4,3 vezes a relação entre dívida líquida e Ebitda, um patamar que reduz a margem para erros de execução.

O mercado parece ter comprado a narrativa de crescimento, com a XP vendo potencial de valorização de mais de 100%. Contudo, a visão mais ponderada do BTG serve como um lembrete: uma carteira de pedidos, por maior que seja, só gera valor se for efetivamente convertida em entregas e lucro. A Boa Safra já decepcionou neste ponto em safras passadas, e a prova de fogo será mostrar que, desta vez, a história será diferente.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times