O Bank of America alterou sua visão sobre o setor de locação de veículos no Brasil, elevando a recomendação das ações da Movida (MOVI3) de neutra para compra. A mudança de postura, detalhada em relatório recente, reflete uma nova interpretação sobre os efeitos da reforma tributária, que o banco considera mais benéficos para as empresas do que o consenso de mercado atualmente precifica.

Segundo o banco, a transição para o Imposto sobre Valor Agregado (IVA) impõe um desafio contábil inicial, com possível redução do lucro por ação nos primeiros anos de vigência. Contudo, a tese central é que a geração de caixa operacional será significativamente impulsionada, tornando o fluxo de caixa livre (FCF) a métrica definitiva para medir a saúde e o valor destas companhias daqui para frente.

O novo paradigma de valuation

A lógica por trás da revisão reside na dinâmica de créditos tributários sobre o investimento em ativos fixos, o chamado capex. Conforme explicam os analistas liderados por Rogério Araujo, o novo modelo tributário amplia de forma relevante a capacidade de aproveitamento desses créditos. Esse movimento compensa a demora na maturação de deduções sobre a venda de seminovos, criando uma estrutura de capital mais eficiente para as locadoras.

O BofA estima que a Movida possa gerar R$ 1,2 bilhão em caixa adicional entre 2027 e 2028, um montante que representa cerca de 31% da capitalização atual da empresa. Para a Localiza, o impacto projetado é de R$ 3,3 bilhões, reforçando a resiliência do modelo de negócio frente às mudanças estruturais na tributação brasileira.

A capacidade de repasse de preços

Um ponto crucial para a sustentabilidade dessa tese é a capacidade das empresas de repassar o aumento da carga tributária nominal para seus clientes finais. O relatório indica que, para preservar o retorno sobre o capital investido (ROIC), as locadoras precisarão ajustar suas tarifas. Estima-se que a Movida precise elevar os preços em cerca de 8% no segmento de aluguel de carros e 4% na gestão de frotas até 2036.

O banco avalia que tal repasse é factível, dado o perfil de serviço das locadoras e a baixa alíquota efetiva de imposto sobre vendas que deve prevalecer até 2033. Essa margem de manobra permite que as empresas mantenham sua competitividade enquanto se adaptam ao novo sistema, mantendo a alíquota efetiva de longo prazo em patamares controlados, próximos a 8%.

Implicações para o setor e investidores

O mercado de locação de veículos demonstra, com essa análise, que a reforma tributária pode atuar como um catalisador de eficiência financeira, ainda que cause ruído nos resultados contábeis de curto prazo. Para investidores, a mudança de foco do lucro líquido para a geração de caixa exige uma reavaliação dos múltiplos tradicionais de preço sobre lucro, que podem não capturar a totalidade do valor gerado pela nova estrutura tributária.

Para reguladores e competidores, a capacidade das líderes do setor de absorver os custos tributários sem perder demanda será o termômetro da consolidação do mercado. A resiliência demonstrada por Localiza e Movida sugere que as barreiras de entrada, baseadas em escala e eficiência na gestão de frota, permanecem elevadas, mantendo o setor como um dos pilares de infraestrutura logística no país.

Perspectivas e incertezas futuras

Embora o cenário desenhado pelo BofA seja construtivo, a implementação da reforma tributária ainda guarda variáveis que merecem monitoramento constante. A velocidade da transição e a precisão das projeções de repasse de preços dependem de um ambiente macroeconômico estável e da manutenção da demanda por aluguéis de veículos, tanto por pessoas físicas quanto por grandes frotas corporativas.

O mercado aguarda agora os próximos balanços das companhias para verificar como os ajustes operacionais começarão a se refletir nos números reportados. A transição para o novo modelo tributário será, sem dúvida, o principal tema a ser acompanhado nas teleconferências de resultados dos próximos trimestres.

A mudança na recomendação da Movida reflete uma aposta na eficiência operacional em um momento de transição fiscal. O mercado agora observa se a tese de geração de caixa se confirmará na prática. Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times