Boots Riley não é um cineasta que se contenta com a sutileza. Em uma indústria onde o ativismo é frequentemente reduzido a um broche lapidado em um evento de gala, o autor de 'Sorry to Bother You' e 'I’m A Virgo' insiste em uma linguagem cinematográfica que une o surrealismo de 'Robot Chicken' à crueza da teoria dialética. Seu mais recente longa-metragem, 'I Love Boosters', não foge à regra. Estrelando Keke Palmer, Naomi Ackie e Taylour Paige, o filme acompanha um grupo de jovens que, ao realizar assaltos em butiques de luxo em São Francisco, acaba tropeçando em uma trama que transcende as fronteiras do tempo e do espaço. É uma obra que, sob o verniz de uma comédia absurda e colorida, esconde uma crítica feroz às engrenagens do capitalismo tardio.

Para Riley, a arte não é um refúgio da realidade, mas uma ferramenta para expor as contradições que sustentam a vida moderna. Segundo entrevista concedida à revista i-D, o diretor enxerga o seu trabalho como um meio de comunicação necessário para alcançar um público que está, em grande parte, imerso nos canais de entretenimento ditados pelo próprio sistema que ele critica. A escolha por uma estética saturada e inventiva, que utiliza técnicas de stop motion e miniaturas, funciona como um cavalo de Troia: a forma atrai, mas o conteúdo desafia o espectador a questionar a origem dos produtos que consome e a natureza do trabalho que os sustenta.

O cineasta como organizador de massas

A trajetória de Riley, que começou vendendo assinaturas de jornais e enfrentando a dureza de canteiros de obras na juventude, moldou uma visão de mundo que ele descreve como inseparável da luta de classes. Ele não vê o seu cinema como um fim em si mesmo, mas como um catalisador para conversas que deveriam, idealmente, levar a uma organização política real. Enquanto muitos artistas contemporâneos se perdem em um niilismo confortável, Riley mantém uma postura otimista — não porque o cenário atual seja promissor, mas porque ele acredita que a organização coletiva ainda é uma arma eficaz.

Essa perspectiva encontra eco na sua definição de 'luta de classes'. Para Riley, não se trata de disparidades econômicas abstratas, mas da função social de cada indivíduo dentro do processo produtivo. Ele argumenta que o poder real reside no controle da força de trabalho. Quando ele observa movimentos grevistas, como os que paralisaram portos na Itália recentemente, ele enxerga o exemplo prático de como o lucro pode ser interrompido e como concessões podem ser arrancadas de governos e corporações. Para ele, o cinema é uma forma de lembrar ao público que a mudança não virá de gestos simbólicos, mas da interrupção coordenada do capital.

A armadilha do ativismo performático

Um dos pontos mais contundentes da reflexão de Riley é a crítica ao que ele chama de 'espetáculo' da política moderna. Ele traça um paralelo entre as manifestações atuais, que muitas vezes carecem de poder de barganha, e os movimentos operários das décadas de 1920 e 1930, que utilizavam greves como demonstrações de força real. O diretor argumenta que, ao focar excessivamente em pautas que não tocam na estrutura de produção, a esquerda institucional acaba se isolando em bolhas acadêmicas e artísticas, perdendo o contato com a classe trabalhadora que deveria representar.

Essa análise é particularmente relevante para o mercado brasileiro, onde o debate sobre o papel do artista engajado frequentemente esbarra nas mesmas contradições. Riley não se exclui dessa crítica; ele reconhece que, ao trabalhar dentro do sistema de estúdios de Hollywood, ele também está operando em um território de compromissos. No entanto, ele sustenta que a alternativa — o isolamento em espaços puramente alternativos — é uma forma de derrota antecipada. A estratégia, portanto, é infiltrar a radicalidade onde ela é menos esperada, utilizando a visibilidade para questionar as bases do sistema vigente.

Stakeholders e a sedução do poder

O filme 'I Love Boosters' também explora a sedução inerente ao poder e como a exploração do outro se tornou parte integrante do cotidiano. Ao colocar seus personagens em posições de escolha moral complexas, Riley força o espectador a reconhecer a própria cumplicidade. Para os reguladores e grandes players da indústria, a obra de Riley é um lembrete desconfortável de que o entretenimento pode ser algo mais do que um bem de consumo descartável. A tensão entre a necessidade de lucro dos estúdios e a mensagem anticapitalista do diretor cria um campo de força que desafia as normas de produção vigentes.

Para o público, a provocação é clara: a arte pode nos tornar mais conscientes, mas a mudança exige uma ação que vai além da tela. A relação entre Keke Palmer e o diretor, marcada por um processo de criação colaborativa que busca resgatar a autenticidade dos atores para além de suas personas públicas, serve como um microcosmo da proposta do filme. Trata-se de recuperar uma humanidade que o sistema de produção tenta, constantemente, lixar e padronizar. Se os atores conseguem manter sua especificidade, talvez o público também consiga recuperar a sua capacidade de agência política.

O futuro da dissidência

O que permanece em aberto, contudo, é a capacidade de recepção dessa mensagem em um clima político tão polarizado. Riley aposta que a radicalidade está na ordem do dia, citando vitórias eleitorais inesperadas como um sinal de que a população está mais aberta a discursos de esquerda do que a mídia tradicional sugere. O desafio, daqui para frente, é observar se essa curiosidade pelo discurso radical se traduzirá em algo concreto ou se permanecerá apenas no âmbito da apreciação estética.

O cinema de Riley não oferece respostas prontas ou finais felizes. Ele convida a uma reflexão sobre a própria natureza do tempo e da história, sugerindo que a narrativa do 'fim da história' é apenas uma construção que nos impede de imaginar alternativas. Resta saber se o público, ao sair da sala de cinema, verá o mundo com a mesma urgência que o diretor imprime em suas cores neon e em sua fé inabalável na organização da classe trabalhadora.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · i-D