O que antes circulava como uma teoria da conspiração em fóruns online se tornou um fato mensurável: a atividade não-humana agora domina a internet. Segundo reportagem da Fortune, múltiplas empresas de cibersegurança concordam que o ponto de inflexão já foi ultrapassado, embora discordem sobre a data exata. Para a CloudFlare, gigante de infraestrutura web, a virada ocorreu em junho, com bots gerando 57,5% das requisições de páginas. Já o grupo francês Thales aponta que a mudança aconteceu em 2023.
A discrepância reflete a falta de um padrão único para medir a atividade, mas a tendência é inequívoca. A ascensão massiva de agentes de inteligência artificial está reconfigurando a web. O modelo de negócio que sustentou a internet por décadas — baseado em impressões de anúncios, funis de conversão e métricas de audiência — foi construído sob a premissa de que o visitante é, majoritariamente, um ser humano. Essa premissa não é mais válida.
A Economia dos Agentes
O crescimento mais expressivo não vem de bots simples, como os de raspagem de dados (scrapers), mas de "agentes de IA" — sistemas autônomos que executam ações como clicar em links e preencher formulários. De acordo com um relatório da HUMAN Security, o tráfego gerado por esses agentes cresceu 7.851% em um ano, superando em muito o aumento de 597% dos scrapers. A velocidade da mudança surpreendeu até mesmo especialistas; o CEO da CloudFlare, Matthew Prince, previa que a marca de 50% só seria atingida no final de 2027.
Para as empresas, a leitura é clara. Rudy Yang, analista do Pitchbook, afirma que "construir para o tráfego de agentes se tornará inegociável". A web ganhou uma nova categoria de "cliente" que consome informação e serviços de maneira fundamentalmente diferente dos humanos. Ignorar esse segmento significa se isolar de uma fatia crescente e, futuramente, dominante da atividade online.
Adaptação e Limites
O mercado já se movimenta. A Stripe reporta que 70% dos seus comandos de acesso a dados via API já vêm de agentes. Em resposta, cerca de 25% dos desenvolvedores agora projetam APIs tendo os agentes como consumidores primários. Empresas como Visa, DoorDash e Coinbase lançaram interfaces de linha de comando (CLIs) voltadas para essa nova demanda, criando um ciclo de aceleração: mais infraestrutura para agentes gera mais adoção, que por sua vez demanda mais infraestrutura.
Contudo, a chamada "economia das máquinas" ainda é incipiente. O Pitchbook estima que apenas 1% do trabalho que poderia ser automatizado por agentes de IA de fato o é. O principal gargalo, segundo Yang, é a ausência de infraestrutura para pagamentos e responsabilização. "Se os agentes não podem comprar e vender, eles não geram atividade econômica", afirma. Sem resolver essas questões, o potencial econômico desses novos usuários permanece em grande parte travado.
A mudança de paradigma é inegável e acontece mais rápido do que o previsto. A tecnologia avança, mas a infraestrutura de negócios e segurança, projetada para um mundo de usuários humanos, ainda corre para se adaptar. A questão não é mais se a internet será reconstruída para as máquinas, mas como as novas regras desse jogo serão definidas.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune





