O Brasil detém uma das maiores reservas mundiais de terras-raras, mas o potencial geológico ainda não se traduziu em relevância industrial. Durante a FAPESP Week Londres, especialistas destacaram que a transformação desses elementos em produtos de alta tecnologia exige competências que o país ainda precisa desenvolver, superando o estágio de mera exportação de minério bruto.

A transição para uma economia de baixo carbono, que demanda veículos elétricos e turbinas eólicas, colocou as terras-raras no centro da geopolítica tecnológica. Segundo Fernando Landgraf, professor da Escola Politécnica da USP, o principal desafio não reside na extração, mas na capacidade de processamento químico e fabricação de ímãs de alta potência, setores onde a China detém hegemonia absoluta.

O abismo entre a reserva e o produto

O conceito de terras-raras abrange 17 elementos químicos essenciais para a fabricação de componentes eletrônicos modernos. Embora o Brasil possua depósitos significativos, o valor agregado está concentrado no refino, especificamente na obtenção de carbonato de alta pureza. Landgraf ressalta que a produção nacional atual de carbonato seria insuficiente para atender sequer uma fração da demanda global por ímãs permanentes.

A dificuldade estrutural reside na complexidade da separação química. Diferente de outros minérios, a separação de elementos como neodímio e disprósio exige técnicas sofisticadas e um controle rigoroso de contaminantes. Sem o domínio dessas tecnologias, o Brasil permanece dependente de cadeias de suprimentos externas, limitando sua participação no mercado a um papel de fornecedor de insumos básicos.

Mecanismos de dependência e barreiras de entrada

O domínio chinês sobre a cadeia de valor foi construído ao longo de décadas, com investimentos estatais e uma política de sigilo tecnológico. A dificuldade de acesso ao conhecimento técnico sobre o refino químico cria uma barreira de entrada significativa para novos players. Para o Brasil, o desafio é desenvolver processos próprios que sejam economicamente viáveis e ambientalmente sustentáveis.

A questão ambiental é um dos pontos críticos. O processamento dessas terras exige o manejo de substâncias químicas que, se mal geridas, geram impactos severos. O desenvolvimento de parâmetros de monitoramento e a mitigação de danos são, portanto, requisitos para que a indústria brasileira ganhe credibilidade internacional, além de ser um imperativo para a viabilidade operacional e licenciamento dos projetos.

Stakeholders e a corrida pela soberania

A disputa global por terras-raras coloca em lados opostos nações que buscam reduzir a dependência da China. Para o Brasil, a oportunidade está em integrar-se a essas novas cadeias de suprimentos. Universidades e centros de pesquisa, como a UFSC e o IPT, já articulam projetos focados em impressão 3D de ímãs e ligas metálicas, tentando encurtar o caminho entre a bancada de laboratório e a escala industrial.

Contudo, a transição para a escala comercial é lenta. Projetos como o laboratório-fábrica em Minas Gerais, apoiado pelo Senai, demonstram que a infraestrutura está começando a ser montada, mas o horizonte de maturação é de anos. A tensão entre a urgência da demanda global e o tempo necessário para desenvolver competências internas define o ritmo de crescimento do setor no país.

Incertezas no horizonte tecnológico

O futuro da indústria brasileira de terras-raras depende da capacidade de converter pesquisa científica em escala industrial. O que permanece incerto é se o país conseguirá atrair o capital necessário para sustentar o desenvolvimento de tecnologias de refino proprietárias antes que a janela de oportunidade global se feche ou que novas alternativas tecnológicas tornem os ímãs atuais obsoletos.

Monitorar a evolução dos projetos de impressão 3D e a viabilidade dos laboratórios-fábrica será fundamental para avaliar se o Brasil será capaz de sair da condição de minerador para a de player tecnológico. A construção de uma base industrial sólida exige não apenas recursos, mas uma política de longo prazo que alinhe academia, governo e o setor privado em torno de objetivos técnicos claros.

O cenário exige cautela, mas a movimentação recente indica uma tentativa de reposicionar o país na cadeia global de suprimentos. A questão central agora é se o Brasil terá a resiliência e o aporte financeiro necessários para sustentar a curva de aprendizado exigida pelo setor. Com reportagem de Brazil Valley

Source · Olhar Digital