As convulsões políticas recentes no Brasil, e em outras democracias ocidentais, oferecem um panorama sombrio sobre a ascensão global da extrema-direita. Longe de serem meros acidentes de percurso, esses movimentos parecem ser a manifestação de falhas estruturais em nossos sistemas econômicos e políticos, que a comunicação estratégica e a desinformação souberam explorar com maestria. A resiliência de líderes como Jair Bolsonaro e Donald Trump, mesmo após deixarem o cargo, não se explica apenas pela eficiência de suas máquinas de propaganda, mas, fundamentalmente, pela existência de um sentimento generalizado de desilusão e abandono por parte de amplos segmentos da população.

A leitura aqui é que, para combater eficazmente a mensagem da extrema-direita, é preciso ir além da batalha contra as mentiras. É necessário, antes de tudo, confrontar as questões profundas que geram o descontentamento e a sensação de que o sistema atual é intrinsecamente falho. A análise de Rodrigo Nunes, publicada em Lit Hub, sugere que o sucesso desses discursos reside em sua capacidade de ressoar com a experiência vivida por muitos, que percebem a vida como uma série de trocas difíceis em um cenário de recursos finitos. Essa visão, embora sombria, encontra eco na realidade de muitos, alimentando um sentimento de resignação e a crença de que mudanças fundamentais são impossíveis.

O Legado da Desilusão Neoliberal

O período pós-2008, que muitos esperavam ser o prenúncio de mudanças radicais, acabou por revelar a surpreendente capacidade de sistemas políticos de operarem com baixa legitimidade. A concentração de poder econômico, intensificada desde os anos 1980, e reformas institucionais que subtraíram áreas cruciais, como a política fiscal e monetária, do controle social, criaram um cenário onde as elites parecem confiantes em sua habilidade de manobrar a população, independentemente da confiança depositada nelas. Exemplos como o desenho antidemocrático da Zona do Euro ou o "teto de gastos" introduzido no Brasil após 2016 ilustram como políticas podem ser blindadas do escrutínio público.

Paralelamente, os mecanismos disciplinares do neoliberalismo – precarização do trabalho, redução de proteções sociais e endividamento privado – continuam a moldar a subjetividade. Esses mecanismos, que sempre tiveram uma dimensão punitiva, como alertado por Naomi Klein com a "doutrina do choque", intensificam-se em tempos de austeridade. Crises, muitas vezes geradas pelo próprio sistema, são usadas como justificativa para acentuar a coerção econômica, apresentando o neoliberalismo como a única solução racional e tecnocrática, isenta de debates. A disciplina tornou-se mais severa, mesmo quando suas bases normativas se tornaram mais frágeis, com o sacrifício apresentando-se não mais como um meio para um futuro melhor, mas como um fim em si mesmo: a adaptação a um horizonte de expectativas em declínio.

A Lógica da Crise e a "Revolta Conformista"

A gestão por meio de crises tornou-se a norma, com o "custo zero" – ou seja, a ausência de intervenção estatal – sendo o ideal a ser buscado. Essa lógica se manifesta na retórica de "imunidade de rebanho" durante a pandemia, que migrou de um objetivo de saúde pública para uma justificativa para a inação. Líderes como Bolsonaro e Trump testaram os limites dessa naturalização da inação, e os resultados são preocupantes. A ideia de que a intervenção pública ideal é aquela que não custa nada, ou seja, nenhuma intervenção, reflete uma profunda dessensibilização à gestão da vida pública.

O que emerge é uma "revolta conformista": um discurso que ataca as elites (mais em termos culturais e políticos do que econômicos) mas que projeta um futuro muito semelhante ao presente. A visão de mundo da extrema-direita, em termos de estrutura social, é resignada ao status quo. O que se promete é, em essência, uma política anti-sistema para aqueles que não acreditam que o sistema possa mudar significativamente. A promessa é que tudo permanecerá essencialmente o mesmo, mas com melhores resultados para aqueles que se sentem deixados para trás.

Implicações para o Futuro e o Brasil

Essa dinâmica tem implicações profundas para a governança e a estabilidade democrática. Ao legitimar a ideia de que sacrifícios são inevitáveis e que a intervenção estatal deve ser mínima, mesmo em face de crises humanitárias, líderes populistas exploram a crença de que o mundo é um lugar de trocas sombrias e recursos finitos. Essa narrativa, embora dolorosa, ressoa com a experiência diária de muitos, que se sentem presos em um ciclo de expectativas em declínio e falta de alternativas. A resiliência desses discursos não é um sinal de sua veracidade, mas de sua capacidade de tocar em feridas reais e não resolvidas.

A experiência brasileira, com a polarização exacerbada e a gestão de crises, serve como um estudo de caso para outras democracias. A capacidade da extrema-direita de capitalizar sobre a desilusão com o sistema, apresentando soluções que paradoxalmente reforçam o status quo, é um desafio que transcende fronteiras. A questão central não é apenas como combater a desinformação, mas como reconstruir a confiança em sistemas que falharam em entregar prosperidade e segurança para todos, e como oferecer alternativas que não se limitem a reproduzir as condições que geraram o descontentamento.

Perguntas em Aberto e o Cenário Global

O que permanece incerto é se as democracias liberais conseguirão reverter a tendência de baixa legitimidade e a naturalização da gestão por crises. A capacidade de apresentar um projeto político que vá além da mera gestão e que ofereça uma visão de futuro inclusiva e esperançosa é crucial. A tendência de medir o "maior benefício" pela proximidade do "custo zero" precisa ser questionada, e a noção de que o mercado é o único juiz do sucesso ou fracasso de políticas públicas deve ser revista.

O que observar daqui para frente é a capacidade dos governos de abordarem as causas estruturais da desilusão: a desigualdade econômica, a precarização do trabalho e a concentração de poder. Sem enfrentar essas questões, o terreno fértil para a extrema-direita continuará a existir, alimentando um ciclo de instabilidade e cinismo político. A lição do Brasil, e de outros casos globais, é que a desinformação é um sintoma, não a doença. A cura reside em abordar as falhas sistêmicas que tornam a mensagem da extrema-direita, por mais conformista que seja sua revolta, uma opção atraente para muitos.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Lit Hub