O silêncio das montanhas da Calábria, na Itália, é interrompido apenas pelos ritmos ancestrais de uma vida que pouco se alterou ao longo de um século. Para Brenda Zlamany, este cenário não é apenas um refúgio, mas o ponto de convergência de uma jornada que começou há 45 anos, quando, ainda adolescente, prometeu a si mesma que um dia ali instalaria seu ateliê. Hoje, a artista ocupa uma estrutura singular: uma antiga fábrica de linguiças, convertida em espaço de criação, cercada por oliveiras e pela memória de um avô que partiu daquela mesma terra como um sapateiro itinerante. A transição de Zlamany não é apenas geográfica, mas uma redefinição de como o artista habita o mundo, trocando a agitação de Williamsburg pela cadência da vida rural.

O peso da memória e o espaço de criação

A escolha de Zlamany por um local tão remoto, próximo ao Parque Nacional do Pollino, evoca uma sensação de déjà vu, um fenômeno que ela descreve como uma memória de um lugar onde nunca viveu, mas que carrega no sangue. O ateliê, um complexo que inclui um forno e uma casa mobiliada com objetos da antiga moradora, torna-se uma extensão de sua prática pictórica. A artista observa que a arquitetura — com fundações de trezentos anos sustentando camadas mais recentes — impõe um ritmo de trabalho que dialoga diretamente com o cultivo da terra. O ambiente não é um cenário passivo; ele exige adaptação, desde a logística complexa para obter materiais de pintura até a necessidade de navegar em passagens estreitas onde carros não chegam.

A dinâmica entre ser insider e outsider

Viver na montanha coloca Zlamany em uma posição paradoxal: ela é, simultaneamente, uma integrante da comunidade e uma observadora externa. A expectativa de que ela compreenda os costumes locais, aliada à liberdade concedida de quebrar certas regras, cria um espaço de intercâmbio com os vizinhos voltados à agricultura. Esse contato diário com quem trabalha a terra oferece uma perspectiva sobre a disciplina artística, onde a paciência e a sazonalidade são fundamentais. A artista reconhece que a dificuldade de acesso à montanha é, ironicamente, o que preserva sua integridade, tornando o isolamento um ativo para a preservação de uma forma de vida que se recusa a ser modernizada.

A recusa da comparação urbana

Ao ser questionada sobre suas referências culturais, Zlamany oferece uma síntese que resume sua filosofia de vida: "Roma tem Michelangelo. Nós temos a montanha". Essa declaração encapsula a valorização de uma estética que não busca a validação dos grandes centros, mas que se encontra na autenticidade do território. O uso de tintas a óleo, mantido com dificuldade graças a fornecedores em Nápoles, é uma resistência silenciosa contra a obsolescência do atendimento personalizado. Ela não busca o museu de arte clássica, mas sim o Museo della Liquirizia, dedicado à história local, reforçando sua imersão na identidade da região.

O futuro entre as oliveiras

O que permanece para Zlamany é a constante negociação entre o desejo de conveniência e a gratidão pelo isolamento. Embora admita que a ausência de transporte público dificulta a vida, ela celebra essa mesma barreira como guardiã da autenticidade do lugar. A pergunta que paira, contudo, é sobre a sustentabilidade desse modelo de vida para a produção artística contemporânea. Será que o isolamento total é o único caminho para a preservação de um olhar singular, ou ele é apenas um luxo temporário de quem pode escolher onde ancorar sua história?

O ateliê continua sendo, acima de tudo, um lugar de escuta. Entre as oliveiras colhidas por seu pedreiro e os lençóis de uma mulher que a antecedeu, Zlamany pinta o que a terra lhe dita, sem pressa de retornar ao mundo que deixou para trás.

Com reportagem de Hyperallergic

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